Manada

Na igreja fechada a luz aboletava-se. Os ajuntamentos de gente proibidos, a abertura das portas de jacarandá também. Através dos vitrais do mezanino um jorro de sol iluminava a pintura da cúpula, refletia nos entalhes em ouro e cruzava as treliças que, como um muxarabi milenar, projetavam sua sombra no infinito.

Padre Monteirinho engatava suas dezoito horas seguidas de reza solitária. Ao longo do dia dedicaria mais seis – em porções variadas e espaçadas – ao sono, ao cozimento das batatas e à fervura do peixe.

Naquela manhã, no entanto, as hostes enfezadas com a falta de respostas decidiram saquear a igreja. O ouro nunca lhes negara o que pediam. Padre Monteirinho, isolado, mantinha suas preces. Deus, que me escute como ouviu a Salomão, ele também preocupado com a peste e com a queima das searas, com os pulgões e gafanhotos. Impeça que o Demônio Coroa inunde teu rebanho com a peste e penetre as frestas de Tua casa. Seu servo aqui ajoelhado Te relembra de histórias tão antigas quanto O Livro porque bíblicos são os tempos em que vivemos. Sei que Tua infinita memória não necessita de suporte mas, ao lembrar-me de momentos ali registrados, encontro a mansidão que agora me falta. O mundaréu de gente já se apertava chocando-se nos corredores. Os primeiros ainda supunham um plano, uma ideia de onde encontrar riqueza. Os demais vinham em manada seguindo a multidão que, já frustrada com a escassez de metais, começava a destruir a imagem dos santos em busca de riqueza escondida. Que não se Cumpra sua ameaça a Ezequiel para quem disseste que a espada levaria os de fora e as maldições da peste os que restassem. Porque um novo tempo se anunciou e nele vivemos, Senhor. Afasta, pois, o cavalo amarelo que traz o inferno junto de si e as feras e as espadas e a fome e as doenças e que leva à morte a três dos meus dez filhos. Sei que essa é sua marca quando chegada a hora, Senhor, mas rogo-lhe que, todavia, atrase-a um pouco mais. Os sons vindo de fora chegavam ao esconderijo onde apenas Padre Monteirinho e Deus se acocoravam. Depois de tantos anos naquela igreja ele reconhecia que o bater de madeira contra piso, o pisar das botas, a queda das telhas e o rachar do barro espatifado, os disparos, os gritos do rebanho, o pingar de água escorrida, as nuvens de poeira que entravam em golfos no seu quarto de meditação, o mugir dos animais, o choro das crianças, o rugido dos serrotes e a explosão das lâminas de machado contra os bancos não eram sons normais para uma quinta-feira. Sei que, pelos erros de Davi e pela predileção dele ao poder, dizimaste o reino, mas o manteve rei. Mas insisto pela sua santa memória: recorda-te que te arrependeste. Mais do que isso, recorda-te que vivemos novos tempos e que a Nova Aliança inaugurada por teu filho não consente com punições de tal monta, ó Juiz equânime.

Padre Monteirinho nada falou aos inquisidores pois nada havia a falar. Olhou como pedindo clemência e teve tempo para pensar que raro seria uma coisa tão importante assim ser levada a cabo numa quinta-feira.

Rodada 94

Fotografia: Lúcia Dias
Conto: Pedro Silva

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