Eu escolheria o nome como quem pudesse distinguir coisas definitivas a partir da primeira imagem que me vem à cabeça olhando para você. Um nome que pudesse ser dado, indistintamente, a bebês como qualquer um de nós e também a galinhas daquelas que ciscam engraçadas nas beiras das estradas, a capivaras com aquelas barbichas ruivas, cometas que atravessam o céu, bonecas de pano, filmes de vanguarda, árvores de galhos retorcidos, invenções milagrosas como lâmpada elétrica e motor a vapor, por exemplo. Ou sonhos que nos acordam de repente no meio da noite. O nome do nosso filho seria escolhido pelo som, pelos sons que nos atraem, o vento da tarde que chega através da janela, a chuva grossa, o zunido intermitente das torcidas nos estádios, o barulhinho estranho que você faz na hora do orgasmo, as coisas fritas fritando na frigideira. Era só isso. Surgiria como o acaso. E eu nem teria muito o que fazer, a não ser colher o nome do nosso bebê no mar das ondas grandes e levar até o cartório com o papel amarelo da maternidade embaixo do braço.
Rodada 93 Invertida
Texto: Renato Lemos
Imagem: Pilar Domingo