O amor chegou as duas da manhã numa corrente gelada. A madrugada jazia num frio de embalar adultos e a embaixadora aconchegou-se na estola. O bar interno do hotel era aquecido, mas não queria ser incomodada. Aqui, na escuridão protegida do terraço evitado em noites como essa, suas peles, além de aquecer, escondiam. Após o dia de negativas e contradições em língua estranha, pensava sozinha e no idioma natal. Cigarrilha acesa e uma taça de espumante compunham a cena e davam à essa geografia e situação. Foi quando sem aviso o amor chegou.
Era uma lufada de vento gélido que, no contato com a pele, trincou a superfície causando dor. Os mamilos da embaixadora entumeceram de imediato e seus tecidos importados o sentiram. O abdômen contraiu-se num misto de exercício e desespero que, por força da anatomia, a curvaram à frente como fosse uma agressão da qual não se pudesse defender. De repente o sintoma fatídico: os líquidos. Embaixo do braço notou um fio gelado que percorria seu eixo e a fazia vibrar. A maquiagem da testa lutava contra glândulas teimosas. E foi mais uma vez em repuxos e torções autônomas que seu sexo despejou no mundo os frutos do amor-lufada.
A embaixadora deixou os pertences do hotel sobre a mesa: taça, cinzeiro, garrafa e duas cédulas em dinheiro estrangeiro. Subiu ao quarto e, ato contínuo ao despir-se em pelo, encheu a banheira despejando-lhe os sais. Quando tocou a água sentiu que o amor a invadia uma segunda vez e que seu corpo agia contra sua vontade. Repousou a nuca na ponta e as panturrilhas nas laterais opostas do mármore polido e abaulado. Com a extremidade quente do dedo que mais apreciava amou-se por toda a vida sabendo-se correspondida e feliz.
Rodada 93 Invertida
Conto: Pedro Silva
Fotografia: Cíntia Ferreira