“Ela deu uma assopradela no seu machucado. Na minha frente. Não que não pudesse ser na minha frente, mas achei isso um desrespeito. Eu não consegui tirar dela uma palavra sequer. Nenhum nome. Estou cansado. Ficamos na mesma sala por exatas oito horas. Ela é osso duro. Continua assoprando os beijos de lapada que eu dei. A danada ainda me olha nos olhos, não me teme. Não sei se eu chamo os filhos dela, um de quatro, outro de onze. Quem sabe ela ali toda vomitada, sem aqueles olhos e sem o semblante de humana fale o nome de cada um e onde estão escondidos o companheiro e o resto da corja. Vou providenciar antes que seja tarde demais”.
Sem titubear o homem do andar duro confirmou o que seu pensamento clamava. Saiu à procura de um cabo. Ordenou que chamasse a patrulha e que fosse pessoalmente pegar as crianças. O cabo obedeceu como de costume.
Sem respeitar a lei de silêncio, tocou a campainha do apartamento onde as crianças dormiam no colo da vó. A vó assustada, sofrendo de erisipela, recusou-se a acordar os netos. Levou um grito do cabo.
-Se a senhora não acordar, deixe que eu mesmo acorde.
A vó olhou para a cintura do cabo. Enganchado no cinto, volumoso e sem discrição, o revólver aparecia. Voltou seus olhos para os olhos do cabo- eles estavam obcecados e não pareciam questionar ordens.
Pediu que ele se acalmasse e lhe ofereceu um café. Não percebeu que estava observando os porta-retratos.
Por fim o cabo se sentou, enquanto a vó dos meninos preparava um café. Pensou em colocar sonífero com gosto de amêndoa, mas seria penalizada por isso. Mal caminhava por conta da erisipela. Fez o café colocando mais pó do que o normal. Encheu a caneca, pegou uns biscoitos de maisena e levou para a sala. Se deparou com o cabo pegando a foto do genro. Da vó se escutou- “Por gentileza deixe o meu genro em paz”.
– Como deixá-lo em paz, minha senhora, se sabemos que ele é o chefe da organização.
– Que organização?
– Vai dizer que a senhora não sabe de nada?
– Não sei e tenho raiva de quem sabe. Trouxe o seu café e alguns biscoitos. Vou acordar meus netos.
Lembrou-se que deveria perguntar o porquê acordar os netos. Voltou e indagou com a voz trêmula:
– Para que meus netos iriam ao quartel?
– O coronel deseja vê-los.
– Preciso ligar para o meu advogado. Não se pode acordar crianças para irem a um quartel. E por falar nisso como está minha filha?
Depois de alguns segundos, entre uma mastigada e outra, via-se uma bola de maisena decorando os dentes.
– Sua filha está no quartel. E o coronel deseja que as crianças a visitem.
A vó, com o semblante de alegria, disse que também iria porque estava com saudade da filha.
– Dona, o coronel só pediu que eu levasse as crianças. Disse o cabo.
-Mas senhor, não se faz isso com uma mãe como eu, viúva e doente. Retribuiu a vó.
A essa altura os olhos do cabo estavam longe. Bem longe. O silêncio foi interrompido quando meio gago meio doce ele disparou um: -Sabe que a senhora é muito parecida com a minha finada mãe? Pode vir também, eu espero vocês aqui.
Grata, a vó se dirigiu ao quarto dos netos. Na sala, o cabo continuava comendo. Esqueceu a foto no canto esquerdo do aparador. Não comia biscoito de maisena há muito tempo.
A vó chegou toda arrumada com as crianças. O cabo, sem graça, não teve coragem de dizer o real motivo da visita, mas vontade não lhe faltava.
O quartel não ficava longe. A ansiedade era visível nos três. O cabo pegou uma k7 e colocou em dolby. A lua emergia enquanto na cela a mãe, desfigurada, pedia para matá-la.
Eles chegaram no corredor. Um gato os seguia e olhava atentamente para o cabo. Feito um tapete vertical, esticou sua vértebra de felino, impediu assim que vissem aquela cena. O cabo, ainda sentia o sabor da baunilha do biscoito. Pediu que a vó e as crianças aguardassem. As crianças se revezaram em acarinhar o gato. A vó, cansada, sentia a erisipela voltar com mais força. As pernas sangravam, não mais do que a filha que, arfante, pedia pela morte. Já não tinha mais face.
– Espero que você fale tudo o que sabe. Vou pedir para o seu filho mais novo entrar. Antes vou te dar mais um corretivo, porque não aguento mais esse silêncio. Disse o algoz.
Os gritos não chegaram ao corredor por conta da mordaça que apertava a boca da mãe que mexia a cabeça como quem diz não.
– Faça com que o mais novo entre! Gritou o algoz.
Cabisbaixo, como quem chora, o cabo pegou na mão da criança. A vó lhe deu uns biscoitos, para que entregasse à mãe. O menino mordeu um pedaço e deu o outro pedaço para o cabo.
A passos lentos, ainda com o gosto da maisena na boca, o cabo sussurrou: – “Não se apavore”.
No corredor, a vó escutou o grito estridente do neto. Arrastou as chinelas e esmurrou a porta.
O advogado ainda estava na calçada do quartel tentando entrar. Não sabia que as lágrimas do filho mais novo de sua cliente umedeceram a maisena e que a ponta de sua língua estava no céu da boca. E o quanto a hóstia não tinha de sagrada.
Rodada 93 Invertida
Conto: Adriana Vieira Lomar
Imagem: Magali Rios