Desiste de tentar dormir e se levanta, o corpo moído dos dias trabalhados a mais. Afasta com leveza o lençol para não despertar Sônia. Na sala as cachorras dormem em suas camas de patchwork. Acaricia suas barrigas com os pés e as bichinhas se esparramam. Quando as levou pra passear da última vez?
Chega à cozinha, abre a torneira e vê a água pingar do filtro de marca exótica, comprado no canal de compras da televisão. Verifica a etiqueta: a vela não era trocada há mais de dois anos.
Volta e para em frente ao quarto da filha. Ouve um ronronar suave. Entra e se acomoda à beira da cama. Acaricia os cachos negros, quase com estranheza. Sobre a mesa de estudo, fotos organizadas em um quadro metálico. Ilumina com o celular, tenta identificar os amigos de Laura. Não reconhece aqueles rostos. Quem daqueles seria o melhor amigo da filha?
Caminha até a varanda, conta as janelas iluminadas da madrugada. São poucas, uma ou outra tela de computador acesa, contatos virtuais. Imagina o cansaço daquelas pessoas no dia seguinte, pensa que elas deveriam estar dormindo, e imediatamente se dá conta de que logo irá amanhecer.
Volta à cama e observa a mulher sob o lençol semitransparente. Admira sua beleza, acaricia pele, coxas e bunda, sente ânimo de declarar seu amor. Não demora muito a perceber que não é ocasião de resgatar anos de vida esquecidos. Afasta-se, ocupa seu lado na enorme cama king size e puxa o caderno de esportes da pilha de jornais.
Abandona o jornal e abre o computador portátil. Inúmeras publicações ensinam a conduzir a vida – no colorido da tela viver não parece tão difícil. Fecha a máquina. Persistente, a insônia reforça a impressão de estar sempre à margem.
Rodada 93 Invertida
Conto: Robson Aguiar
Fotografia: Graça Souza