Se fosse para ser uma despedida, que fosse rápida. Tirei tudo de dentro dos móveis. Fui empilhando os objetos nos cantos. Nada ficou na sala. Nem quadros, nem tapetes. Nada de bibelôs, nada de jornais ou revistas. Do quarto deles, separei objetos e roupas. Queimei papéis. Do meu antigo quarto, que havia se transformado em quarto de hóspedes há anos, encaixotei os livros para a biblioteca mais próxima. Joguei fora os enfeites das prateleiras. Até as prateleiras, arranquei. Sem fúria. Apenas com rapidez. Nunca achei que valesse à pena se demorar em despedidas. Liguei para o centro de caridade. Em dois dias, levaram tudo.
Gastei ainda menos tempo no banheiro e na cozinha. Foi como se tampasse o nariz e fechasse os olhos para um mergulho: sem querer saber das canecas de coração, das escovas de dentes, dos remédios, vencidos ou não, da forma de bolo, de tudo, de tanta coisa que eu não quis ver, nem sentir o cheiro. Tampouco lembrar. Toquei tudo como se não sentisse. Sem luvas nas mãos, mas com escudo na alma.
Dei uma última olhada. Ainda pude ver, no carpete velho do agora quarto de hóspedes, a mancha avermelhada que eu tinha feito quando criança. Ainda pude ver, na janela do quarto deles, a silhueta dos dois a olhar o mar sempre no finzinho da tarde. A mancha ficou na retina. A silhueta evaporou. Ou teria – terá, sido o contrário?
Fechei tudo. Na rua, fui andando devagar. Para que pressa? Como se despedaçasse. Uma parte de mim. Como se despedaçasse um pedaço da casa que eu não tornaria a ver. Como se despedaçasse em um movimento parado, contraditório e redundante.
Fui embora deixando aquela casa em que vivi por tanto tempo. Aquela edificação que se tornara apenas mais um lugar, um espaço que acabou se transmutando em tempo, em época. Tempo onde eu não posso mais morar. E que, a partir de então, visitaria só em memória.
Obedecendo ao clichê de não olhar para trás, deixei lá – mordido, o tempo que me abrigou. Foi rápido, mas fiquei sem ter certeza de que tinha sido uma despedida.
Post Extra
Desenho: Glória Mota
Conto: Eliane França