“O que que aconteceu? O Macaco caiu!!
Por que que aquele fruto ele teve que comer?
Ele se machucou? Ele ficou Mó caco!!
Ele pirou? Ficou com a cuca má!”
(“O macaco caído – Lews Barbosa)
“Olha só aquele clube que da hora,
Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora
Nem se lembra do dinheiro que tem que levar
Do seu pai bem louco gritando dentro do bar
Nem se lembra de ontem, de hoje e o futuro
Ele apenas sonha através do muro”
(“Fim de semana no parque” – Racionais MCs)
Eu serei ainda mais grave, mãe. Mais grave e mais pungente. Mais grave, mais pungente e eficaz. Você não estava lá, mãe. Você não viu com seus olhos. E é apenas porque me ouve contar o que vi que é assim tão indulgente com eles. Tão permissiva. E isso eu não entendo, mãe. Você sofreu tanto quanto eu. Talvez até mais. Porque sei que me ama e que, quando me viu sofrer, cortou-se duplamente. Mas não é a dor que me abre esse talho, não é o ferimento que me decepa. É a injustiça. Eles são nossos primos, mãe. Ou deveriam ser. Eu sei disso, você sabe disso, o papai também sabia. E o pior: eles também sabem! Eu sei que eles sabem. Eles negam, olham pra gente com desprezo, mas eles sabem que somos família do mesmo sobrenome, carne da mesma origem, galhos do mesmo ramo. Eu não aceito mais aquela tela, aquela jaula, aquele fosso, aquela grade. Eu serei ainda mais grave no meu golpe, mais pungente com minha lâmina, mãe, mais eficaz no meu gesto de morte. Não chore, por favor, não faça isso. Saber que você sofre com meus feitos tem uma ação devastadora sobre mim. Sei que o seu coração já se acalmou, mas o meu nunca, mãe. Sou jovem, entende? Jovem. Aquela idade onde as coisas mudam e podem mudar. Eu tenho a carne fresca, o músculo forte e retesado de quem segura a pedra, o olhar aguçado de quem percebe o predador. Mas cansei de fugir deles, mãe. Cansei de receber as sobras. Somos família, não somos? Por que a eles tudo? Por quê? Por que a eles o doce de todas as mangas, o frescor das cachoeiras, o vento de todas as planícies? E a mim? E a nós, mãe? O olhar por trás da grade, a piedade, o deboche, o escárnio. Eles já foram retirados do centro da natureza, removidos de seu protagonismo no arranjo de seu próprio mundo, do cerne de si mesmos. E isso não foi obra nossa, não. Eles auto impingiram as chagas. Mas agora chegou a minha era, mãe. E não haverá piedade no meu golpe. Que a sombra de todo esse passado ilumine a o ato de minha justiça. E que ela seja grave. Pungente. Eficaz.
Rodada 92
Fotografia: Rudy Trindade
Conto: Pedro Silva