A hora mais triste do dia

Justo nesses momentos minha cabeça é invadida pelos pensamentos mais difusos. E é claro que gostaria de entender as notícias da minha terra, de como caminharam aquelas questões que tanto me angustiavam e que, agora, após o vagar dos meses, arrefeceram em urgência. É também preciso notar que recebo fotografias e mensagens – aqui e acolá o mundo se esforça em abastecer-me de fragmentos que, mesmo reunidos, perduram em compor um todo estilhaçado. A distância me ajuda a contemplar essa miríade de peças e adiar a hora de juntá-las. Como se fugisse.

Sempre se cresce com a impressão de que a felicidade é externa ao lugar em que você está. E assim somos incentivados a ganhar a vida e alçar caminhos na intenção de equalizar aflições e fraquezas, na esperança de que alguma espécie de magia subverta a realidade e a faça amoldar-se às fantasias juvenis que você supôs serem a máscara da verdade. A distância me ajuda a disfarçar essas pequenas trapaças e a acreditar que o caminho está em construção, ainda que as vozes soem mais miúdas e que a saída do labirinto pareça um bocadinho mais distante. Como se buscasse.
Essa é a hora mais triste do dia, diria minha mãe. E é justamente quando se acende a velha luminária do miradouro, inocente tentativa de sabotar a noite a indicar que urge nascer um tempo novo.

Rodada 91

Fotografia: Rudy Trindade
Conto: Robson Aguiar

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