“A Brigitte Bardot está ficando velha,
envelheceu antes dos nossos sonhos.
Coitada da Brigitte Bardot,
que era uma moça bonita,
mas ela mesma não podia ser um sonho
para nunca envelhecer.
A Brigitte Bardot está se desmanchando
e os nossos sonhos querem pedir divórcio.
Pelo mundo inteiro
têm milhões e milhões de sonhos
que querem também pedir divórcio
e a Brigitte Bardot agora
está ficando triste e sozinha.
Será que algum rapaz de vinte anos
vai telefonar
na hora exata em que ela estiver
com vontade de se suicidar?
Quando a gente era pequeno,
pensava que quando crescesse
Ia ser namorado da Brigitte Bardot,
mas a Brigitte Bardot
está ficando triste e sozinha”
(Tom Zé – Brigitte Bardot)
A Sra. Alvarenga herdara o sobrenome da família materna. Enquanto fora casada, adicionara um novo complemento para a assinatura: Fortuna, palavra forte em língua portuguesa, mas diminuída pelo destaque social do Alvarenga, nome do meio, opulento, famoso e sisudo. Falava metade do tempo em inglês por força do círculo social. Quando a insistiam em abreviar por “Fortuna” ou “Fortune” corrigia “Alvarenga, please”, para desespero da dicção anglo-saxã (e do ex-marido, desprestigiado). Divorciada, devolveu o sobrenome que a corrompera por uma dúzia de anos e guardou apenas uma coisa, sua cunhada, a Sra. Fortuna Strauss, irmã de seu ex-marido e companheira eterna da Sra. Alvarenga.
Por companheira entenda-se o sentido literal da palavra, “aquela que acompanha”. Não havia ali nenhum sentido de fraternidade, afeto, suporte mútuo ou desejo. Em verdade sua companhia se dava pelo ódio que nutriam mutuamente e que não encontrava descanso de parte a parte. A Sra. Alvarenga e Sra. Fortuna Strauss eram siamesas no desprezo e nos maus desejos que se dedicavam sem parcimônia.
No mais, tinham um segundo elo, naturalmente o mais importante e a origem de todos os desgostos posteriores: o Sr. Strauss. Por mais de uma década fora marido da Sra. Fortuna Strauss, até que, por uma paixão arrebatadora e sem culpa, começou a dedicar o coração também à esposa do seu cunhado, aquela senhora elegante de cabelos ruivos, acento estrangeiro, etiqueta refinada e hábitos afetados, a Sra. Alvarenga.
O Sr. Strauss viveu seu novo amor proibido até o momento em que um ataque cardíaco fulminante lhe arrebatou a vida e forçou as arqui-inimigas a juntarem-se no mesmo recinto. Recolhidas a cantos opostos, notaram apenas o quanto as décadas haviam sido cruéis com ambas. A Sra. Fortuna Strauss fora cobiçada por vários bons partidos da nata financeira antes de decidir-se pelo falecido. Nada tinha da mulher insegura que agora fingia juventude às custas de cirurgias. Já a Sra. Alvarenga deixara nítido a todos que não podia se deslocar entre a parede e o caixão sem o apoio da bengala de marfim. No fundo, ao virem-se ambas em pontos decadentes da vida, irmanaram-se naquilo que lhes havia de mais distante: a fragilidade infantil dos corações partidos. Foram simultâneas ao caixão e beijaram cada uma um olho do defunto. Evitaram apenas o choro para não comprometer a maquiagem, mas saíram de lá sem culpas ou dívidas.
Rodada 91
Fotografia: Ângela Márcia
Conto: Pedro Silva