Sem remetente

Fechou a última caixa. Enquanto colocava a tampa, pensava se seria mesmo a última. Demorou meses, não sabia quantos – menos de um ano, disso tinha certeza – para arrumar todas aquelas caixas. Alguns diriam que era cedo demais. Outros achariam tarde. Mas ela estava tão exausta que mandou todas aquelas vozes de dentro da sua cabeça calarem a boca! Ao vivo, cara a cara, de frente à pessoa que lhe falava e lhe dava conselhos que ela não pedira, não era tão grosseira. Apenas dava um sorriso cansado.

Sentou-se com um ar preso no peito. Olhou a correspondência em cima do aparador. Para aqueles papéis, ainda não tinha tido paciência. Não depois de tantos formulários que teve de preencher, mesmo sendo filha única. Papelada funesta, o noivo dizia, tentando brincar com ela naquele humor estranho que eles compartilhavam. Ele lhe ajudara tanto! E por que tanta burocracia para os que ficam? Não há nada do morreu-acabou tão falado. E agora quando casariam? Tantas perguntas. Eram muitos os tantos: medo, cansaço e, maior do que tudo, essa tristeza amarga que ainda não se convertera em saudade.

Acabou soltando o ar com um suspiro. Meio forçado, meio espontâneo. Como tudo o que andava fazendo. Pegou os papéis e os envelopes. Foi passando os olhos para ver o que descartaria e o que veria com calma depois. Mas não aguentava mais ler o nome materno, que lhe brilhava à primeira vista para, em seguida, nublar tudo. Como um farol alto vindo em direção contrária. Fechou os olhos. Quando abriu, viu seu nome em uma correspondência. Não tinha remetente.

Abriu o envelope em um paradoxo de desânimo e de curiosidade. Era uma foto. A princípio, não entendeu. A princípio, não se reconheceu. O sofá estava um pouco longe, então não pode lhe aparar a queda. O chão, sim. E lá ficou com as pernas esticadas como uma menina, vendo-se assim também na foto de mãos dadas com a mãe. Quem lhe mandou aquela lembrança?

Sempre se recordava daquelas férias. Tão boas que nem tinham tirado fotos! Quem as tinha espionado assim e mandado aquele pedaço de memória justo nesse momento? Apesar de conhecidas e facilmente reconhecidas nos lugares aonde iam, tinham conseguido se manter discretas naquele verão. Felizes por estarem ocultas, como turistas comuns. Tão quente o ar, tão boa a água salgada. E aquela maravilhosa solidão de duas. Sem os malditos paparazzi. Em um misto de sentimentos, não sabia se agradecia a discrição ou amaldiçoava aquela pessoa que ela nem sabia quem era! Por que ele, ou ela, não vendera a foto? E agora, justo agora, lhe enviava esse presente com ares de provocação? Ou seria de chantagem?

Procurou por um bilhete, algo escrito no verso da fotografia, mais uma foto, um negativo, uma pista. Mas não viu nada de estranho além de um barquinho e de um sol desenhados por cima da imagem. Não deixava de ser uma pista, afinal. Começou a sentir um calor calmo. Como o que sentia na praia da foto. Era quase um abraço. Decidiu que depois resolveria as emoções e o mistério. Pois sabia que tinha sido amada e a saudade, que só aumentaria, teria que se acostumar com isso.

Rodada 91

Imagem: Pilar Domingo
Conto: Eliane França

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