Vidas baratas

Ainda bem que o tiroteio foi ontem. Se fosse hoje, se fosse agora, eu andaria devagar, bem devagar, perguntando à vida: é isso, acabou-se? Nesse instante, deitada na cama, não mexo um dedo. Ao contrário de ontem, ao ouvir os tiros. Saí correndo junto com os outros, com uma descarga elétrica me impulsionando. Corríamos igual barata, buscando a sobrevivência sem saber de onde vinham as balas. Barata tonta – que expressão mais engraçada! E que injusta a expressão “mais perdido do que cego em tiroteio”. Quem não fica perdido em um tiroteio? Não é um duelo, onde se tem vítima certa… É um Deus nos acuda, isso sim! Eu corri. Mas se fosse agora, eu andava devagar. Tudo tão triste, tudo tão… escuro. Espero que o sono venha. Peço, rezando baixinho: para que amanhã nem tiroteio, nem dormência de não levantar da cama. Pedindo para que eu não termine o dia me perguntando se a vida é só isso.

Rodada 90 Invertida

Conto: Eliane França
Desenho: Graça Souza

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