Tempo 1

A dor que estava no peito, mais ou menos controlada, de repente desce rápido e em linha reta, como uma lança que atravessa o diafragma, o estômago, o intestino, as tripas, a gordura, a banha, até cravar certeira no meio do meu cu. É o cu – e não o coração, como romanticamente gostamos de imaginar – nosso verdadeiro radar de sentimentos.

Sinto medo.
Dou um passo para trás.

Estou em pé diante da porta do apartamento em que Isadora morou um dia com o propósito de dizer apenas uma palavra: perdão – e quando a porta se abre, lá de dentro vem um cheiro de comida refogada, alho, cebola, óleo de soja, tempero, isso tudo somado a cheiro de faxina, cloro, água sanitária, amaciante de roupa, desinfetante, cheiro daqueles produtos de limpeza vendidos nos mercados em embalagens de plástico cor de rosa ou azul clarinho. Um cheiro que me atinge em cheio quando a porta se abre e quase me joga pra trás. Ando para o lado. Gaguejo. Penso que talvez eu não devesse estar ali.

Talvez.

Estou em pé diante da porta do apartamento em que Isadora morou um dia com o propósito de dizer apenas uma palavra: perdão – e quando a porta se abre, lá de dentro vem um cheiro de sabonete, desodorante, xampu de ervas e cremes para a pele, baunilha, lavanda, vapor e o cheiro de mulher saindo do banho, mulher pelada enrolada em toalha saindo do banho, um cheiro tão intenso que, quando a porta se abre, quase me arremessa para trás, como um golpe de boxe desferido no meio do meu rosto por um lutador experiente, um murro que poderia me derrubar escada abaixo. Tento me esquivar. Gaguejo. Não é Isadora, ela não poderia estar ali na porta. É a irmã dela. Há espuma de sabão no seu ombro, um filete de água escorre pelo pescoço. Amanda é rápida comigo. Você não deveria ter vindo aqui, seu filho da puta, é o que ela diz.

Talvez.
Talvez eu devesse mesmo estar em outro lugar.

Rodada 90 Invertida

Texto: Renato Lemos
Fotografia: Lucia Dias

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