Num dia 31 de março há muitos anos eu joguei bola na rua com meus amigos pela última vez. O Bruno disse que precisava ir embora mais cedo porque o irmão dele voltara de viagem. Ninguém ligou. Depois o Jonas foi correndo todo emburrado porque a mãe dele fez escândalo ordenando tomar banho. A gente até riu na hora, mas novamente não notamos o que aquilo significava.
O resto de nós ficou até o final e seria exagero pedir à minha memória que lembrasse o placar. Geralmente a regra era “dez minutos ou dois gols” mas não sei exatamente como acabou a última partida de nossas vidas. Fato é que os doze restantes sentamos no meio fio, tomamos uma coca gelada, vestimos as camisetas que tinham sido penduradas num muro, no guidão da bicicleta, emboladas junto com os chinelos e depois saímos.
Todas as tentativas futuras fracassaram. Geralmente éramos eu e o Marcelo que chamávamos. De repente, por total coincidência, começamos a não conseguir montar dois times. O Gilson ingressou num estágio e só voltava pra casa à noite. No final de semana estava cansado. O Bigo começou a namorar a Pri e esqueceu um pouco da gente. Na mesma época o Abel se mudou de volta pra Santa Catarina. Ficávamos eu e o Marcelo peregrinando com a bola e acabávamos brincando de gol a gol mesmo.
Na época ninguém ligou, sabe? Tanta coisa mudando. E tantas pra melhor. Meu pai arranjou um novo emprego e me deu uma mobilete. Óbvio que eu preferia rodar com ela do que ficar arrancando tampões do dedão chutando o asfalto.
Eu lembro que foi no dia 31 de março porque, no dia seguinte, quando eu e Marcelo saímos com a bola e voltamos sem jogo, a gente ficou conversando sobre o “Sai de Baixo”. A TV tinha passado o último episódio e, no domingo seguinte, o programa não existiria mais. A gente gostava de assistir. Geral dizia que queria comer a Magda. Bando de adolescente cheio de espinha. A Magda ficou velha. Nós também. Domingo foi a última pelada da vida de cada um dos meus amigos. E, ao que me lembre, nenhum livro de história registrou o fato.
Rodada 90 Invertida
Conto: Pedro Silva
Fotografia e fotomontagem: Rachel Jaccoud Amaro