Eu tinha uma dor
E por cima
Eu vestia meu pulôver.
Ele era de uma cor
De botar na minha cara
Um revólver: lembro-me bem disso.
Vocês não imaginam
Eu o comprei numa liquidação
Por uma quantia inimaginável.
Eu tinha uma dor
E por cima
A vestia com meu pulôver.
O vendedor me disse que tinha sido
De um velho cobrador de pôquer
E que alguém um dia o botou numa aposta.
Ele já tinha passado pelas mãos de um assassino de aluguel
Que o usava nas noites de pague mais para ter de volta sua vida.
Eu tinha uma dor
E por cima
Não vesti mais meu pulôver
Rodada 90 Invertida
Poema: Fernando Andrade
Fotografia: Walter Vinagre