Os guardas foram os primeiros a fugir. Acorrentaram os prisioneiros na areia e levaram todos os barcos. Tiveram, pelo menos, a decência de nos jogar as chaves das algemas. Nesse dia mesmo, os até então prisioneiros, começaram a fazer as jangadas para escapar. Eu, não. Para onde ir se as águas salgadas não perdoavam nenhum pedaço de terra? O mar estava disposto a tomar tudo. E eu já tinha ficado sem esperança para esse mundo desde que o Tião me arrancara o olho direito. A valentia dele durou só até aí. Parti para cima dele como louco. Não ficou vivo para contar a história. Eu, sim. Acho que vou usar o último papel e enviar uma daquelas cartas em garrafas. Que vão à deriva sem se importar qual a quantidade de mar e qual a quantidade de terra que existem enquanto navegam. Com um olho só, viverei bem. Não foi Camões? Navegante que ficou em terra? Que também foi preso? Não sei. Talvez, até você, essa carta chegue.
Rodada 89
Imagem: Ângela Márcia
Texto: Eliane França