chego e acomodo as bolsas junto à porta da sala, sem preocupação de desarrumá-las. na casa, a cada visita mais imensa, há quase silêncio: vozes tênues vêm da cozinha. vou ao encontro de Lúcia e Vera e recebo um café duplo sem açúcar. as mensagens correios telefonemas poupam palavras e todo muito esforço se limita a uma cordialidade pálida. são quase estranhas. somos. durante a viagem vinha tentando mapear infância juventude vida adulta e entender mais ou menos quando o elo se rompera e o hiato se formara, mas qualquer resposta soa artificial. talvez tenha sido apenas o desejo juvenil de fugir daquele universo escasso de realidades e substâncias e, de repente, o passado não interessa mais, os amigos se tornaram outros que já não aqueles que reconhecíamos em nós mesmos e o tempo escoou para sempre. a memória, permeada de lembranças embaçadas, estampa a tela da velha televisão de tubo, 29 polegadas de estorvo: quem poderá levá-la dali?, e todas as outras coisas papéis documentos fotos toda essa memória abandonada que de repente volta a ter significado para, dali a alguns dias, novamente voltar a ser apenas fardo problema sem resposta mais e mais dessas tantas situações da vida adulta sem solução. fossem outros tempos caberia perguntar como vão as coisas e todas essas falas retóricas que se usa pra ganhar tempo ou apenas quebrar o silêncio, mas é hora de avançar: Bárbara está no quarto com ele. Bata na porta. Subo as escadas: os degraus simétricos ditam o ritmo e parecem querer dizer que não há motivo para pressa.
Rodada 88
Imagem: Lucia Dias
Texto: Robson Aguiar