Seria bom voltar a ter um quarto. Um quarto grande, com janelas sempre abertas por onde entrasse o esturricante sol da tarde e o vento leve da madrugada. Um quarto com uma cama simples, forrada de chita colorida e com um urinol embaixo. Um quarto onde eu ouvisse histórias antes de dormir e onde as criasse durante as sestas depois do almoço.
Seria bom. Não digo um bom no sentido de razoável, mas bom como definitivo. Um quarto. Não uma cela, não uma suíte, não um latifúndio com móveis caros, não um espaço frio de lojas de decoração. Um quarto simplesmente.
Um quarto com cortinas ao invés de portas, um quarto em que a cama pudesse ranger ao mais leve movimento do corpo contando histórias enferrujadas alojadas nas molas históricas.
Um quarto onde eu pudesse chorar a noite inteira e onde o sol me surpreendesse com o mais alegre sorriso da manhã.
Após tantas camas divididas, tantos tetos diferentes a me perscrutar durante as noites de insônia, após tantos criados mudos com fotos de mudos desconhecidos, seria bom ter um quarto calmo, sem surpresas boas nem más, um quarto que me protegesse de mim.
Rodada 87 Invertida
Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Ângela Márcia