“Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”
“Sujeito de sorte” – Belchior
Eu morri por quarenta minutos.
O mundo acontecia do lado de fora e eu o sentia pelo guincho das gaivotas. Do lado de dentro da minha morte eu conseguia avançar e retroceder o tempo. Sabia que, mesmo à prova do meu olhar, os carros trafegavam rapidamente pela orla, os donos passeavam com seus cachorros e ninguém notava o mínimo som do que poderia ser meu último preocupar-se. Pela janela aberta entravam os bafos e ruídos.
O processo de morrer é infinito. Durante ele as coisas começam lentamente a desimportarem-se:
O apartamento novo.
O emprego.
Os inimigos de si e da pátria.
Dentro daqueles quarenta minutos eu retrocedi e avancei quantas vezes desejei.
Quando relembro, sinto o cheiro da maresia misturado aos peixes da semana santa. E escuto outra vez as gaivotas que, na falta de abutres e urubus, me conduziram para o além-vida.
Morrer me fez sentir a vida com poros mais abertos.
Ainda assim espero que a próxima vez seja a última.
Rodada 88
Vídeo: Marilene Agrizzi Nacaratti
Texto: Pedro Souza da Silva
Parabéns, Marilene e Pedro, Gostei do trabalho de vocês, da combinação do vídeo com o texto. Ficou uma coisa misteriosa e bacana. Abraços,Cesar
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