Marejar

Só consigo imaginar, pois não posso me mexer. E quem sabe do que falo? Só fecho os olhos. Aperto. Quando abro… vislumbro.

Imagino. É tudo o que posso fazer no momento. Passeios, nados, cavalgadas… mas a quem quero enganar? Me contentaria com um pique para fugir de respingos de chuva, com um simples abaixar para pegar qualquer coisa no chão. Mas nada disso posso fazer. Não no momento.

Então, aperto os olhos. E abro, esperançosa. Qual terá sido a primeira vez? Desse abrir e apertar de olhos, do imaginar? Dentro do útero, dentro do líquido. Dar longas braçadas, boiar de barriga para cima, afundar e ressurgir. Dominar o barco. Marejar.

Na televisão, o presidente perdoa o holocausto, celebra a ditadura, pergunta o que é golden shower. Tento não ouvir. São meus esses delírios? Efeitos da medicação? Fecho os olhos como quem quer pálpebras nos ouvidos. Abro os olhos como porta entreaberta. Não quero ouvir. Meus olhos marejam.

Imagino. Longos passeios de bicicleta, andar com uma xícara nas mãos. É só o que posso fazer no momento. Só posso imaginar e escuto. Quero imaginar, mas vejo. O país. À deriva. Como eu. Nesse leito.

Rodada 88

Imagem: Rachel Jaccoud Amaro
Texto: Eliane França

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