[o vão das coisas]

Eu deveria buscar o copo de água na geladeira frost free inox com dispenser – a expressão do vendedor da loja do shopping ficara congelada em minha mente depois de meses – e apenas me deitar, vencido. Mas eis que de repente chega o momento da vida adulta em que passamos a depositar toda possibilidade de alegria em um determinado instante, e apesar do cansaço consulto o celular a cada 2 minutos à espera de uma mensagem. Decerto uma ligação me faria muito mais feliz, afinal não é simples apreender o quanto há de autenticidade em breves palavras digitadas. É exagerado imaginar-me merecedor de tal cuidado: somos pouco mais que colegas de trabalho e um telefonema, todos sabem, requer uma intimidade superior nos dias de hoje. Examino a casa, até há pouco tempo cheia de vozes e movimentos, mas todos partiram e resta aqui um homem só e a miríade de espaços a preencher. A máquina do expresso está quebrada, então resolvo passar um café convencional – pequenas panaceias da vida moderna. Não há pó, lembro agora do bilhete da faxineira, nem é possível sair pra comprar a uma hora dessas, e essa é exatamente a situação que me faz entender o quanto há de adequado nas tentativas de equalizar o cotidiano e de como seria simples o hábito de ir às compras, caso eu o tivesse. É quase desumano o esforço de acompanhar o ritmo das coisas. Troco o café por um copo de água com gás, gelo e limão e ligo a tevê num canal a cabo de cinema. Sempre me assusta a quantidade de opções: de quantas vidas precisarei até esgotar esses títulos e todos os outros que virão? Sintonizo em qualquer deles, e das poucas coisas que identifico é a fala castelhana, sonoridade recheada de expressões familiares. A sinfonia aos poucos se completa em quase perfeição e são necessários poucos minutos para que eu adormeça, o copo a ponto de tombar dos dedos vacilantes. Em algum lugar o telefone toca, com insistência. Não há ninguém para atender.

Rodada 87 Invertida

Imagem: Rachel Jaccoud Amaro
Texto: Robson Aguiar

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