Reza

Naquela noite, antes de dormir, resolveu rezar. Há anos não o fazia e ficou em dúvida quanto à oração. Depois, ficou em dúvida quanto à própria dúvida, pois não lembrava se… lembrava. De alguma oração. Sentiu-se confusa. Sentou-se cansada.
Não tinha religião. Tinha, teria, teve? Nem sabia se deveria ou não se ajoelhar. Por que os católicos rezavam assim? Não sabia. Mas com certeza deviam ter seus motivos, não? Lembrou-se dos… muçulmanos? Que faziam a postura da criança em direção à Meca. Riu de seu ecumenismo confuso, ao misturar yoga com islã. Era islã? Deus, precisava estudar! Deus?! Não seria ateia, agnóstica? Materialista histórica e dialética? Assim como… São Tomé? Não era ele que queria ver para crer? Era materialista, então…! Se bem que São Francisco parecesse mais socialista… Ao deixar fortuna e ficar de pés descalços, tão pobrezinho. Viu? Não era tão ignorante em matéria de religião!

A quem estava enganando? Queria rezar e nem sabia como! Só tinha uma certeza no momento: queria rezar. Bíblia. Não tinha. Torah. Não era judia! Alcorão. Tá de sacanagem?! Nunca nem vira um Corão, Alcorão… Arrependeu-se de usar palavra de tão baixo calão perto dos livros sagrados. Ditos sagrados. Não foram escritos por homens? Como eram sagrados? Percebeu, então, que não se concentrava no que era essencial: por que queria rezar? Agora e tão desesperadamente? No entanto, não estava desesperada. Estava? Mas não era essa a origem de todas as rezas e religiões: o desespero? Sentia-se nada mais do que uma boa… herege, isso sim. Vamos rezar! E deixar de bobagens.

Fechou os olhos. Ninguém reza ou morre de olhos abertos. Mentira! A gente cansa de ver nos filmes os médicos passando a mão por sobre as pálpebras dos atores que imitam os mortos. Ai, sentia-se horrível! Com pensamentos que eram metidos a engraçados e que não tinham a mínima graça. Tinham, teriam?

E se meditasse? Isso tinha aprendido a fazer. Então por que queria rezar? Ao passar os olhos, sem querer, pelo calendário da sala entendeu. O dia, que tinha passado tão despercebidamente, cintilou em sua retina. E compreendeu também porque tentava fazer tanta graça com assunto tão sério…

Ficou olhando a… folhinha, como diria sua avó. Aquela senhora rechonchuda, que falava muito palavrão e que a amou incondicionalmente. Ateia, de gritar que era anarquista graças a Deus. Culta. Como ela mesma dizia, à frentex do seu tempo. Minha nona loca, como gostava de gritar antes de correr para beijar aquelas bochechas sempre rosadas. Por que ficam assim coloridas nossas lembranças dos avós? Como se fossem desenho animado? Figuras de histórias… Um casaco que era verde nunca é de um verde comum em nossa memória, é o verde mais verde que jamais houve! Seu cheiro o mais cheiroso de todos os cheiros do mundo. Seu bolo o mais saboroso, enorme, praticamente do nosso tamanho e que nunca vamos comer nada igual! Sua avó despertava nela esse e tantos outros sentimentos. Ela estava à frentex mesmo. Cavalgava, sabia atirar, era esgrimista. Quando nova, claro. Mas era impossível não imaginá-la como uma espécie de heroína. Com asas. E seus assuntos… Sempre tão interessantes. Seus conselhos. Mesmo quando não davam certo eram, no mínimo, uma delícia de serem ouvidos. De tão absurdos. Assim como quase tudo o ela que dizia. “Vó, tô com dor de cabeça.” “Que bom.” “Bom, Vó?!” “Sinal de que você tem cabeça…”. Era econômica no que tinha de ser e generosa em tudo o mais. Contraditória, cheia de amor. E hoje era, inegavelmente, seu dia. Lembrou-se do bardo inglês. Sua avó era a única pessoa que tinha se igualado a ele! Ao menos, pelo que sabia. Escrevera peças e sonetos? Não. Lembrou-se dela já adoentada, dizendo que ia ser ótimo se fizesse que nem Shakespeare e que não chorassem por ela. Fizessem um bolo, cantassem parabéns e todos juntos soprassem as velas. “Que horror, Vó. Para com isso!”. Por fim, a nona loca acertara mais uma vez… Quisera tivesse errado. O bolo pronto com as velas que ela não pode assoprar…

Sua avó havia lhe ensinado xadrez, a dar peteleco, a desmaiar com classe, a fazer feijão. No entanto, não se lembrava de que tivesse ensinado alguma reza. Teve uma ideia. Repentina. Pegou o caderno de receitas. Um bolo. Algumas velas. Toda receita realizada não deixaria de ser herege oração. E as velas que acendemos e apagamos: nossas homenagens. A quem está, ou não, aqui. Amanhã estudaria budismo, xintoísmo ou esgrima. Hoje: dia de nona. Pensar besteira. Amar a vida. Depois de sopradas as velas e comido o bolo, conseguiu dormir.

Que a prudência me acompanhe e que a ousadia não me abandone. Já era sonho quando se lembrou. Da pequena frase que a avó dizia ao lhe beijar a testa antes das viagens. Como pôde se esquecer? Da pequena oração que nunca deixara de lhe acompanhar? Sorriu ao se virar de lado, no meio da vigília do sono. Desconfiando que a avó só queria mesmo era sentir cheiro de bolo.

Rodada 87 Invertida

Texto: Eliane França
Imagem: Marcia Magda Marcos

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