Marquei um encontro. Num dia ensolarado, parti para uma cidade no meio da mata e contratei um guia. Não um guia qualquer, mas um desses que conhece os caminhos da natureza, da alma e que sabe conduzir a gente. Ele me conduziria até um local apropriado para que eu pudesse pensar sobre a minha vida. Era um rapaz alto, uma cara estranha, afunilada, de poucas palavras. Ele talvez já tivesse se encontrado. Andamos por mais de uma hora em silêncio. Chegamos a um rio, esses rios rasos e pedregosos, água limpinha e cheiro de mato, como os rios da minha infância. Caminhamos por sobre as pedras molhando os pés na água gelada. Às vezes, num local mais fundo, a água atingia os joelhos. Íamos calados. Não carecia palavra. Lá pelas tantas, nos deparamos com umas construções estranhas, se é que poderiam ser chamadas de construções. Eram pedras sobre pedras, muitas, cada monte com uma personalidade própria. Cada monte desses foi uma pessoa que fez, disse-me o guia. Olhei aflita tentando contabilizar quantas pessoas já haviam passado por ali e deixado suas marcas. Fiquei muito curiosa, mas o rapaz esperou calado até que eu perguntasse o que era aquilo. Tratava-se de um exercício de paciência, concentração e alinhamento de energias. Ele me instigou vai, ache sua pedra, busque seu equilíbrio, seu ponto de apoio, seu fio narrativo. Eu não sabia como começar. Observando, ele me disse. Eu olhei atentamente aquelas pedras sobrepostas e depois escolhi um conjunto delas e me detive. Era uma pedra do tamanho de uma mão aberta, apoiada sobre ela vinha uma pedra fina e pontuda e sobre esta uma pedrinha redonda. Elas não caem? Estão aí há muito tempo? Estão coladas? Eu estava muito confusa e ele apenas me disse que cada uma tinha seu tempo. Não caíam se estivessem no lugar certo, no lugar de cada uma não poderia haver outra. Após minutos que pareceram horas, ou talvez tenham sido mesmo algumas horas, ou dias, anos talvez, minha vontade era sair chutando todas aquelas esculturas malucas que estavam me deixando doida. Levantei-me e cheguei a preparar a perna de apoio para chutar com o outro pé, mas alguma coisa me impediu. Talvez uma borboleta amarela que havia pousado em cima da pedrinha redonda. Fui contida pela leveza das asas sobre as pedras. E parei. E quando olhei em volta, o rapaz já não estava lá. Mas eu podia sentir a força da minha presença numa corrente que se juntava à água daquele riacho. Resolvi voltar correndo, mas acabei me perdendo. Andei muito tempo sem direção certa, até que voltei ao rio. E então, comecei a procurar a pedra que seria a minha base. A pedra sobre a qual viriam todas as outras até que eu virasse borboleta.
Rodada 87 Invertida
Texto: Maria Emília Algebaile
Vídeo: Marilene Nacaratti