Após tantos anos, senti ser o momento de rever a pedra.
Em todos os verões da infância e adolescência – os mais belos e o mais triste, era a pedra que me acolhia. Ali eu me escondia dos demônios e me entregava aos prazeres de forma plena. Compartilhava com ela sonhos e pesadelos. Traçava planos e fugas.
Foi na pedra que eu voei e, num dia cinza, de lá também caí de ponta-cabeça, mudando os rumos da minha vida e me trancando feito concha.
Durante anos lutei para esquecer aquele dia, uma guerra inglória, que me encontrava sempre derrotada a cada amanhecer. Batalhas e batalhas, dia após dia, a pedra me fazendo lembrar que o fim está a um passo.
Sentia uma quase necessidade de retornar ao local onde estavam presos os sabores mais suaves e os mais acres, onde meu olhar se mantinha atado ao horizonte, impedindo-me de olhar em volta. Era preciso voltar a respirar, ainda que apenas uma vez mais.
Após tantos anos, uma coragem me invade e volto à casa de vovô. Num ímpeto, caminho até a pedra e não a percebo. O que me chama a atenção é uma imensa árvore florida. Galhos enormes, raízes fortes, flores brancas e miúdas preenchem minha visão. Uma criança corre livre e me deixo levar por sua imagem tão deslumbrante.
Enlevada pela imagem viva da árvore em flor, o espectro da pedra vai se distanciando de meus pensamentos e de meu coração.
Aquela pedra cinzenta vai assumindo seu lugar no passado das minhas emoções. A árvore assume o protagonismo ante meus olhos e me toma por inteiro – esta sim me apresenta um espetáculo que só a vida pode oferecer.
Eu agradeço e, aliviada, aceito de bom grado.
Rodada 86
Imagem: Angela Márcia dos Santos
Texto: Maria Emilia Algebaile