– Rádio Notícias Populares, repórter Ana Guimarães, boa tarde.
– Ana, é Pedrosa, da 5ª DP, tudo bem?
– Tudo bem uma ova, né, Pedrosa. Dois dias sem uma dica boa, cara. Quer acabar com a minha carreira? Tão no meu pé aqui.
– Por isso que tô te ligando, Ana. Tem sangue fresquinho pra você. Corre na rua do Lavradio.
– Até que enfim! Te encontro em dez minutos.
– Tô esperando, vem logo.
Dez minutos depois. Ana chega ao local do crime. A cena é chocante. Seu olho brilha. Entrevista algumas pessoas, faz umas anotações e liga para a redação:
– Trindade, é Ana. Nunca mais reclama quando eu passar dois dias sem entregar nada bom. É sangue e crueldade que você quer? É isso que vou te dar. Você sabe que sempre vale a pena me deixar de butuca, esperando a história certa. Essa vai bombar a audiência. Prepara aquela sonoplastia dramática. Tudo pronto pra eu gravar? Posso falar?
“Na sala, o silêncio torturante atazanava o juízo dos que aguardavam ser chamados. A esperava já durava quase toda a manhã. Além da falta de retorno da secretária, o plec-plec do ar-condicionado parecia contribuir para abafar ainda mais o ambiente. O número de pessoas que aumentava a cada instante e a proibição de fumar tornavam a espera mais e mais angustiante. Não havia como acomodar ninguém decentemente na sala diminuta e quente, de decoração decadente, com as plantas de plástico empoeiradas que pendiam nos vasos ordinários, também de plástico, mas que imitavam terracota. Já havia quem estivesse sentado nos braços dos sofás. Ao todo, eram dez pessoas.
O décimo primeiro a entrar na sala esforçou-se ao máximo para obedecer à placa que pedia silêncio. O homem abriu a porta com todo o cuidado, entrou pisando macio e a fechou com mais cuidado ainda, usando as duas mãos para garantir que a manobra fosse precisa e não emitisse um único ruído.
Não havia mulheres na sala. Apenas homens com ternos baratos, alguns talvez emprestados, ansiosos por um emprego. Um deles batia sem parar o maço de cigarros na perna, enquanto outro, sentado próximo à porta, mantinha um apagado entre os dedos. A maioria expressava desesperança no olhar; alguns ainda mantinham certo brilho, talvez pela expectativa de serem chamados a qualquer momento. Havia pelo menos duas horas e meia que a senhora atarracada e aparentando cinquenta e poucos anos desaparecera com os currículos. Ninguém conversava. Uns poucos fingiam ler o jornal ou uma revista semanal com páginas faltando e alguns aniversários na mesinha de centro.
O homem sentiu a garganta seca e estava intimidado pelo ambiente silenciosamente hostil quando pigarreou para chamar a atenção de alguém. Precisava saber a quem deveria se dirigir, pois aparentemente não havia ninguém responsável pelo escritório naquele lugar. De repente sentiu que todos o olhavam. Novamente a garganta seca e notou que os olhares se desviaram, na tentativa de encobrir a animosidade pela chegada de um possível concorrente. A densidade do ar talvez fizesse, agora, com que o tempo corresse mais devagar. E tudo aconteceu em câmera lenta. O homem que batia impacientemente o maço de cigarros na perna foi o primeiro a levantar quando o último a entrar na sala fez menção de perguntar alguma coisa. O soco inesperado derrubou no chão o desempregado que usava um terno emprestado e que acordou, naquela manhã, com a esperança de voltar para casa com uma boa notícia. Assim como todos os outros que aguardavam naquela sala abafada. O segundo golpe foi um chute no estômago. E assim, um a um, os homens descarregaram todas as frustrações da manhã interminável. O linchamento terminou quando a secretária, que vestia um conjunto de saia e blazer de tecido azul barato abriu a porta. Atraiu todos os olhares, aliviados e novamente esperançosos. Ouviram apenas a frase: “Voltem amanhã, pois o chefe não vai poder atendê-los hoje. Obrigada”. E não havia mais vida no corpo do homem de terno emprestado, estendido no meio do tapete roto.”
Os telefones da rádio não paravam de tocar, pedindo para a história ser reprisada, em forma de rádio novela.
Ana Guimarães não se cansava de receber os elogios dos colegas, mas continuava na cola do Pedrosa para garantir o novo sucesso da Rádio Notícias Populares.
Rodada 85
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Patrícia Cunegundes