queria criar um repente pensei em rimas ranger de dentes era a última vez e eu sabia disso pois ele levantou bradando um e se eu fizesse isso queria saber cantar essa peleja em que um era meu pai e o outro seu irmão meu tio minhas unhas ficaram só no sabugo meus olhos esbugalhando ali na praça para todo mundo ver eles movendo as peças como se suas vidas dependessem daquele jogo minhas costas suadas só pensava naquele duelo queria ser cineasta colocava naquele tabuleiro um ser humano e a morte mas não sei fazer repente não sei fazer filme só sei assistir assim como via aquele confronto que não teria volta eles não seriam mais amigos depois daquela disputa era certeza que eu tinha pois não sabia quem seria o vencedor que nem sempre está com a razão e antes do peão chegar à última casa antes mesmo te digo se fosse um plano de cinema eu aproximaria a câmera mostrando o peão sem poder virar rainha e meu tio levantando e a praça toda vendo e eu comendo os dedos quando meu tio levantou e jogou o tabuleiro no chão e as peças voaram e meu pai gritando fascista fascista eu era nova não entendia as palavras democracia ditadura e meu pai gritando que o outro não respeitava as regras e o povo tentando separar quando meu tio pegou uma faca e disse isso vai acabar veado tem que morrer e eu não sabia o que era veado e eu ainda não tinha visto o sétimo selo e mais tarde naquele dia meu pai me ensinou tudo o que ele sabia sobre xadrez e política e fomos embora sem um “mas” da minha mãe sem uma vírgula dos meus avós e sem nem mesmo um ponto final
Rodada 85
Imagem: Magali Rios
Texto: Eliane França