Adorno

            Pouco importava se a chamassem: velha. Quando fechou a casa do último botão da blusa, sem pudor de ter pudor, tinha certeza de que não voltaria em sua decisão. Na véspera mesmo, ainda tinha dúvidas se deveria ir. Olhou-se no espelho. Sim, era velha. Não era como se chamavam as coisas quando elas tinham muitos anos de existência? Velha, e não antiga. Foi ao armário. A gravata disfarçaria os seios já sedentos à gravidade, em especial comparados às moçoilas atrevidamente empinadas que encontraria pelo caminho. Aprovou, finalmente, o adorno. Lembrou-se da escritora russa, famosa somente aos oitenta anos, vestida toda de preto com um chapéu enorme, joias e luvas, e que exprimiu exatamente o que sentia: “Eu já tenho oitenta anos, mas ainda quero parecer uma mulher interessante!”. De gravata colorida, iria. Nas olheiras, nada. Nem o habitual corretivo. Entraria pisando firme no Conservatório. Exibindo-se. Arrumou o cabelo em coque senhorial, pegou os cadernos e as canetas. Partiu. Achando graça daqueles que, preocupados com a vida alheia, teriam que lhe inventar um novo rótulo.
            Quando voltou, estava ofegante. Tudo o que queria fazer naquele dia, tinha feito. Olhar atento a tudo. Ignorando as dores das articulações. E na hora de soltar a voz, sentiu que tinha nascido para aquilo. Por que esperara tanto tempo? Esticou-se na poltrona. Não era momento de lamentações. E sim de comemorar. Que se danassem os remédios! Pegou a cachacinha de abacaxi feita no alambique da família. Só tomaria um copo. Afrouxou a gravata. Aquela colorida de tricô, que as meninas tinham feito uma roda para ver. Achando-a interessante… Durante toda a sua vida reprimiu seu canto. Primeira juíza de sua cidadezinha, formada na capital, dois filhos, quatro netos, casa própria, correta. Corretíssima. De vez em quando, soltava a voz. Para espanto dos que ignoravam que estudara piano desde pequena. Que era prendada. Que falava francês. Que estava cansada. E que a partir, de então, só faria o que lhe desse na veneta! Passar no Concurso de Reingresso do Conservatório de Música. Aos oitenta anos. Ninguém me segura! Boa aluna que era, nem pensou em entrar no mundo da música de outra forma que não fosse pelo estudo. Agora, cantaria. Mostraria a todos o que cantara escondido durante todo esse tempo. Tomou mais um gole da cachacinha. Adormeceu na poltrona. E não na cama, bem arrumada, como sempre tinha feito. Infalivelmente. Nesse dia, falhou. O copo nem fez barulho quando caiu no tapete.
 

Rodada 84 Invertida

Texto: Eliane França
Imagem: Pilar Domingo

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