Encontros não marcados

Hoje eu me deparei com o poeta flanando pelo supermercado. Apertou legumes e frutas, entrou na fila da carne e pacientemente escolheu biscoitos. Tive um ímpeto de lhe dirigir a palavra, quem sabe tocar de leve seu braço e falar olha, sou eu, sua leitora, mas o momento era de especial contemplação de minha parte e abri mão das minhas ânsias de intimidade com coisa séria.

Também fiz minhas compras e saí da loja deixando lá dentro o poeta com seus cachos de cabelo grisalho entre as hortaliças. Caía uma chuva fina e precisei apertar o passo. Mas fui capturada pelo pé florido de manacá. Aquelas flores roxas e brancas com gotículas da chuva que começava a apertar, foram a senha para que eu entrasse pelo jardim e buscasse o seu perfume de forma quase agressiva, enfiando meu nariz na folhagem e me molhando inteira. Não consegui me segurar dessa vez. A poesia colocou-se inteira em meu caminho e foi impossível dizer não.

Encharcada e feliz, ainda pude ver o poeta saindo do supermercado com suas sandálias de couro e as sacolas nos braços. Seus pés não escolhiam os lugares menos inundados da calçada. Seus cachos ganharam uma camada de gotas que logo logo despencaram pela testa. E foi nesse momento que ele me viu enroscada ao pé de manacá. E estancou. E ficamos nos olhando. O cheiro do manacá em flor, a chuva caindo forte, a comunhão com a poesia, meu olhar no olhar do poeta… e foi aí que o tempo parou.

Rodada 84 Invertida

Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Patricia Cunegundes

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