Balanço

1.
Sempre que anoitecia, minha mãe chegava com aquelas pessoas. Quando eles iam embora, eu abria os olhos e o dia já tinha voltado pela janela. Mesmo sozinho, eu me despedia: até de noite, Emília, Dona Benta, Tia Anastácia, Visconde de Sabugosa.
2 .
Não comi, não falei nada. Meu pai me mandou sentar: abre a boca. Descobriu o dente de leite e montou o consultório numa mesinha improvisada. Algodão, gaze, álcool, linha. Uma cerveja e dois copos. “Primeiro, a anestesia.” E encheu os copos, fazendo espuma.
3.
A avó me proibiu de balançar. “Você tem quarenta minutos para pensar no que o pastor disse.” Foi assim que aprendi a ver as horas.
4.
O avô sentava e dormia imediatamente. Mas começava a fazer uns barulhos. E de repente, acordava completamente mudado. Agora ele era o Monstro do Milharal e, mesmo mancando de uma perna e com o corpo todo torto, saía correndo atrás da gente, grunhindo. Até o dia em que ele sentou, dormiu em silêncio e o Monstro do Milharal nunca mais apareceu.

Rodada 83

Texto: Cesar Cardoso
Imagem: Walter Vinagre

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