caminho faz horas. caminho é um jeito tênue de contar: muito mais arrasto os vestígios de mim pela areia úmida da praia, enfim deserta nas primeiras horas do novo ano. as cinzas de quem eu era se misturam aos farelos da manhã, restos de comemoração dispersos à maneira de um quebra-cabeças recém desfeito.
diante de mim, uma oferenda devolvida pelo mar – ou, ao menos, é o que os meus olhos precários entendem ser. com os dedos dos pés, passo a desenhar contornos, setas e sinais, conferindo à oferenda assimetrias e identidade.
logo eu que, há pouco, era apenas resíduo, transmuto-me em artesão, criador poderoso a lançar tintas de cores vivas na tela nua. e pressinto que, no momento exato em que as coisas estavam maduras para terminar, curiosamente parecem outra vez prontas para nascer.
Rodada 82
Imagem: Pilar Domingo
Texto: Robson Aguiar