«Tenho medo que você seja um méchant», dizia ela.
O estado atual em que ele se encontrava a amedrontava: um grande sismo, uma ruptura, uma vida que gritava para ser refeita.
Um farrapo desprezível de gente se apresentava na frente dela.
Ele já tinha visto uma vida nascer, já tinha sentido aquilo que vem do íntimo e das profundezas a explodir por todos os poros.
Ele já havia dado o que não tinha e recebido aquilo que não precisava.
Ele sabia, também, que é o peso – o peso daquela que entra neste jogo de dar o que não se tem a quem não quer – que é o peso desta mulher que reordena a vida de um homem.
«Tenho medo que você seja um méchant», dizia ela, insistentemente.
«Putain» ela também dizia quando tinha prazer do seu corpo através do corpo dele, ao mesmo tempo que o agarrava com suas pernas, com seus braços, com seus beijos, com seu suor.
Ele viu que a cama dela era bagunçada como a sua.
Ele aprendeu com ela a comer iogurte no café da manhã – ele puro, ela com passas e granola.
Ele queria uma filha com ela, queria vê-la nessa transformação, transformação que desafia o homem a ser capaz de contemplar, acompanhar, admirar e fascinar-se, fascinar-se por esta que o acolheu e incorporou, fascinar-se por esta que agora faz esse algo que só se pode dizer com o testemunho do próprio corpo masculino feito presença inteira, silenciosa, firme e contemplativa.
A foto dela tinha um mistério, um mistério que se mantinha quando ela estava ali na sua frente como mulher inteira, entregue ou reticente.
Extático.
Ela o fascinava de um jeito completamente novo e extremamente intenso.
Ele se abriu.
Ela o invadiu com tamanha intensidade, rapidez e fluidez que ele não pôde bloquear, despertando o que ele havia de mais profundo sem a possibilidade de seleção.
«Tenho medo que você seja um méchant», sussurrava.
E o corpo dele estremecia e se esfarelava.
A voz já estava dentro e ele já não tinha um espaço para ver-se de frente a partir de si.
Já não tinha espaço, desci.
Já não tim rá ex-passo desejo de si.
Um ex que não passa o desejo, desci, cedido.
«Coloque-me no seu passado», ela lhe disse.
Paralisia:
Do francês «paralysie», substantivo feminino
1. [Medicina] Doença em que alguma parte do corpo perde a sensação ou o movimento ou ambas as coisas ao mesmo tempo.
2. [Figurado] Marasmo, entorpecimento.
3. Impossibilidade de operar.
Todo seu corpo ficou imóvel no centro da sala.
Nenhum músculo a mover-se, nenhum ar.
Estático, somente a pele sentia uma brisa deslizando, tal como aquela meditação que destruiu a potência de tudo.
Nada se movia.
Nada pulsava, andava.
Nada corria, chorava, fervia ou vivia.
Nada fazia, nem sentido fazia.
Nada. Atonia.
Nem a janela, aquela janela que sempre se quis pular, nem ela era algo possível ou desejada.
Ficou imóvel, contemplando a sensação de arrancado, de peito, de transparência, de oco, de pouco e de muito, de nada, de plenitude seca dilacerada roubada perdida e espremida.
Ficou imóvel por dias.
Por dias ficou a ressoar a voz: «Méchant, coloque-me no seu passado!».
Seria possível ter uma capacidade de desprezo a ponto de rejeitar os afetos e se desligar completamente pedindo que se seja colocada como um passado?
Ou seria isso uma fuga, um medo de um envolvimento, de uma vida, de um laço?
Seria possível ser um méchant mesmo frente a um sentimento assim intenso?
Se fosse forçado a escolher entre o desprezo e a méchanceté, por buscar o caminho que o levaria a algo afetuoso, ele escolheria esta palavra francesa que ele não é capaz de traduzir…
Ficou imóvel.
E contemplou o jardim secreto.
E vislumbrou flores, o verde, o rio.
E contemplou.
E jogou-se a cultivar esse espaço jardim para si só e a não saber mais sobre o futuro, nem pelo sim, nem pelo não, nem pelo encontro, nem pelo desencontro, sem esperança e sem esperar, ex-perar.
E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois sabe da morte e a faz uma companheira à vida.
E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois sabe da sedução e da jouissance.
E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois necessita do cultivo constante e cuidadoso.
E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois tenta fazer do afeto sua escolha possível.
Este jardim, ele o deseja inteiro.
Rodada 81 Invertida
Texto: Gilson Beck
Imagem: Angela Márcia