Só de pensar no que tinha para fazer, o desânimo era total. Vontade de largar tudo para lá, ou para qualquer outro lugar e se deixar cair em um canto da poltrona. Ou mesmo ir escorregando de mansinho até o chão. E, assim quietinha, quem sabe se esquecessem dela. E as coisas por fazer talvez se esquecessem de que tinham que ser feitas. Mas ela não conseguia se esquecer. Nunca teve esse dom de se mesclar na multidão e se engrenar tão perfeitamente em uma rotina que ela não havia escolhido para si. Lembrou-se, então, de si mesma e das coisas a serem feitas. Recolheu os papéis assoados há dias. Jogou restos de comida na lixeira quase entupida. Desentupiu lixeiras. Livrou os ralos dos cabelos. Empilhou os livros sem tê-los lido. Colocou frascos para reciclar e quando cansou, jogou fora potes misturados à comida mesmo. Separou roupas sujas se enganando com as limpas, pois ao cheirar não sabia qual era qual. Limpou, lavou, torceu, esfregou, suou. Tudo como sua mãe lhe havia ensinado. Por fim, sentou-se. No mesmo lugar onde começara a pensar nas coisas por fazer.
Em breve, teria de fazer tudo de novo. E de novo. E de novo. E se não fizesse nada? Se só fizesse o que lhe ditasse a necessidade? A partir de então, só levantasse para assoar o nariz, comer, evacuar. Ler, luxo. Tomar banho só quando não suportasse mais o cheiro… Em seu apartamento, colecionar cheiros de todos os papéis usados e de todos os objetos nunca limpos. Perder-se em uma montanha do que seria considerado lixo. Não conseguir andar sem esbarrar em algo, em muitos algos. Cortando-se nas latas, inflamando-se os membros, abrindo feridas purulentas que a deixariam inchada. Cansada. Com febres. Os cabelos não mais nos ralos porque não os pentearia. As unhas se transformando em garras. Dentes amarelando, tornando-se podres, caindo. As roupas grudando na pele. Os insetos que surgiriam de todos os cantos. Assoar o nariz no braço sem nem precisar sair do chão. Deixar de fazer as coisas comuns do cotidiano, pequenos fardos que temos medo de abandonar. Desobrigar-se daquela rotina domesticada. Ter aquela despreocupação com a higiene da casa, postura considerada tão natural em seus irmãos.
Queria então, não desejar coisa alguma. Não possuir nada. Ou, pelo menos, não adquirir mais nada. Sem nem mesmo encontrar o que procurasse. O telefone tocando debaixo de pilhas. O cheiro que, em breve, ela deixaria de sentir. De sentir qualquer coisa. Paraíso? Liberdade. Teria coragem? Tantos pensamentos lhe deram dor de cabeça. Levantou da poltrona. Recomeçou a limpar. Mesmo o que já estava limpo. Lembrou-se dos elogios que sempre recebia quando se esmerava em limpar tudo. Sentou-se novamente. E agora sim…
Pronto. Estava pronta para recomeçar o tédio. Agradecendo por ele existir. Sem saber se ele voltaria. Quem sabe semana que vem. Na nova faxina. Ou na que sempre fazia… depois que acabava a primeira. Tudo impecavelmente limpo? Paraíso? Prisão.
Rodada 81 Invertida
Texto: Eliane França
Imagem: Walter Vinagre