Conto

– João, me dá uma ajuda aqui! Pede pro Ricardo e pro Maicon também darem uma força.
*
– Carlos, preciso falar uma coisa contigo.
– Diga, meu amor.
– É que eu tenho pensado muito no Rogério.
– Rogério?? Quem é esse cara?
– Meu primeiro namorado.
– Como assim? Vocês andaram se reencontrando?
– Não, não vejo ele já tem uns quinze anos. É que eu sinto que tenho um lance interminado com ele, eu terminei só porque queria transar com outros caras e tal, mas não vivi a coisa com ele até o fim.
– Onde você tá querendo chegar?
– Eu liguei pra ele hoje, a gente vai se encontrar à noite. Vou propor da gente voltar.
– Que loucura isso! O cara vai te achar uma louca! O que você tá falando? A gente tásuper bem!
– Eu sei que a gente tá bem, mas ficou essa coisa em aberto.
– E aí você vai deixar a nossa coisa em aberto?
– Eu sei… Mas já tá há muito tempo, eu preciso resolver isso.
– Ele vai te achar uma louca, querendo voltar depois de quinze anos sem se ver. E não vai ser o único a te achar louca!
– Me desculpa, meu amor, você não merecia tá passando por isso, mas eu preciso concluir o negócio com ele. Se ele não quiser voltar, aí eu vejo o que faço, mas eu preciso fazer o que for possível pra gente voltar.
*
– Rogério, preciso falar contigo.
– Diga, coisa linda.
– Tem um diretor lá do trabalho, o Antônio, que vem me cercando há quase um ano…
– Sério? Filho da puta! Denuncia ele pra ouvidoria!
– Não, mas é que… um dia ficamos até mais tarde no trabalho e… Enfim..
– O quê? Você me traiu!?
– Meu amor, me desculpa, eu te amo! Mas é que eu acho que sempre tive uma coisa por coroão. Eles têm um charme… E essa coisa dos caras saírem pagando tudo, um monte de luxo… você sabe que nunca fui disso, mas tem um tesão nisso, nessa coisa de poder. Acho que sou uma sugar baby.
*
– Antônio, preciso falar contigo.
– Diga, bizun-bizun.
– Sabe a minha amiga Laura?
– Sim, a de cabelinho no ombro.
– Então, outro dia eu estava na casa dela e… acabamos transando.
– Não sei o que pensar….
– Eu gostei muito.
– Hm…
– Preciso viver isso.
*
– Laura, preciso falar contigo.
– Diga Florzinha.
– Saca o Daniel e o Ricardo?
– Sim, claro.
– Outro dia eu tava na casa deles e o Ricardo comentou que eles tavam a fim de fazer um lance com uma mulher.
– Hm…
– Aí me dei conta que, na verdade, sempre fui hétero. Mas por pudores eu não deixava a coisa ir até o fim, e por que um homem só se dar pra ter dois? Terminei relacionamentos trocando um por outro, quando eu gostava de dois…
– Mas Florzinha, você já pulou tanto de galho em galho! Parece que tá sempre insatisfeita.
– Não, não é insatisfação, é só que parece que minha verdade tá em outro lugar.
– Mas nunca tá…
– Eu sei… mas… essa coisa tá muito forte, eu sinto que eu realmente nasci para relações héteros de poli-amor.
*
– Ric, Dani, preciso falar com vocês.
(…)
*
– Que que o César tá querendo, hein?
– Tá pedindo uma força lá.
– Porra, não consegue mais dar conta do expediente sozinho não?
– Parece que não veio ninguém, a gente que vai ter que carregar a véia.

Rodada especial 2017/2018

Texto: Renato Amado
Imagem: Glória Mota

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