Tudo tem um início, um começo. Esta é a minha estreia, meu conto inicial.
E tudo que se inicia, tem seu fim.
O termo já havia sido decretado dois dias após do seu prelúdio, mas ele somente o percebeu às vinte e uma horas,em ponto,de um sábado frio de junho, deitado no sofá da sala, com o celular sobre o braço do móvel. (veja, caro leitor, que a estória não é tão antiga, já havia celular). Ele olhava para a escuridão na noite na janela, nem nada ver.Caía uma lágrima pelo canto do olho, quando alguém passou(ele acha, até hoje, que foi seu pai). Esfregou o olho correndo, enquanto ouvia “passou o dia todo aí? vá comer alguma coisa e dormir.”
O início foi numa festa de 15 anos. Os dois eram conhecidos da debutante, mas não se conhecia. Passou a noite toda conversando com ela, um pouco mais velha do que ele, bem mais experiente do que ele. Tinha nome diferente, “é de uma atriz inglesa, minha mãe estava grávida de mim quando viu o filme e gostou do nome”. Ele nunca ouvira falar daquele filme, tampouco da atriz. Ela estava entediada com a festa, mas parecia interessada no garoto bobo que não parava de tagarelar. Ele estava nervoso e não sabia bem o que fazer. Quando a aniversariante foi valsear no salão com o príncipe-de-faz-de-conta-contratado-pelos-pais, o garoto respirou fundo e chamou-a para dançar. O primeiro beijo, porém, surgiu apenas no final da festa. Tarde demais.
Tarde demais descobriu o moleque, ao ser chamado, deitado no sofá,com uma lágrima escorrendo do canto do olho, que perdera o dia em vã espera. Sua primeira paixão foi como a primeira brasa num carvão que se enrubesce rapidamente, mas logo se apaga. Passara a semana suspirando. Ligou apenas uma vez para ela no domingo, numa longa conversa sobre muito e nada ao mesmo tempo, tão comum entre os enamorados.Mandara diversos SMS. (sim, leitor, como é velha essa estória,nem havia whatsapp ou internet em celular!).Alguns, contudo, sem retorno. Na aula de Literatura, tivera ciúmes de Cruz e Souza, como se ele tivesse escrito seus sonetos para a sua menina, a sua inglesa. “Ó meu pálido amaranto!Não és inglesa, és brumosa.”Na aula de Trigonometria, dormia de olhos abertos. Na quarta e na quinta, ela não respondeu às suas mensagens, “está fazendo doce”, pensou. Na sexta, ele tomou coragem e domou o coração. Após a aula, ligou; ela vi a ligação no seu celular, bufou (“garoto chato”) e não atendeu. Poucos minutos, o chato insistia. “quer sair comigo amanhã?”, apareceu em seu celular; ela, que já tinha combinado de sair com outra pessoa, bem menos bobo, bem menos garoto, respondeu “amanhã te ligo para combinar”. No sábado, às vinte e uma horas e um minuto, ele percebeu que ela nunca mais lhe ligaria. Percebeu que ela nunca ligou para ele. Às vinte e uma horas e três minutos, fez uma solene promessa, consigo mesmo: nunca mais se apaixonaria. Por ninguém. Nunca mais. Ainda bem que era bobo; nunca cumpriu essa promessa.
Na verdade, parando para pensar, não escrevi sobre um fim. Descrevi um debute.
Rodada Especial 2017/2018
Texto: Guilherme Quaresma
Imagem: Pilar Domingo