0 Tempo

Um minuto de silêncio antes que o juiz apite o início do jogo. Tempo entre o tapa na bunda do que acaba de nascer e o primeiro berro que vem subindo na garganta. Cachorros no deserto de Atacama latem para as nuvens que eles nunca viram e o mágico, na esquina movimentada, pede esmolas com sua cartola. Na galeria de paredes de vidro, a japonesa carrega O grito, de Munch, cortado a facadas. O PM para de balançar o termômetro e confere a temperatura. No escuro da sala, o relógio pisca 12 horas. O garoto chora porque não aguenta o peso da alça do caixão onde vai o corpo do pai. Ela segue seu striptease sem música no quarto sem espelhos. Só a tevê a ilumina. Na cena, o pelotão de fuzilamento dispara. A tartaruga sente a vibração da estrada e usa toda sua força para fazer a volta e se livrar das rodas que vêm a cem por hora. Os dois boxeurs entram em clinch, se abraçam e se beijam na boca. O afogado ainda respira. Na imensidão do vale, o monge se masturba. A criança comemora em frente ao bolo com três velinhas. Há balões, trenzinhos de marzipã, foguetes de chocolate, chocalhos de gelatina, fantoches de marshmallow. Dentro do bolo dorme o homem com roupa de couro e chicote. O sangue começa a manchar de vermelho o glacê branco. Na portaria, uma mulher ajeita a burka em frente ao elevador. O enfermeiro escova a dentadura. O homem-bomba está apertado para fazer xixi. A claquete vai bater para indicar ação. A atriz prepara o choro, pensando na filha com câncer. O faxineiro espia o pó que se acumulou no esqueleto do dinossauro. Uma granada voa. A freira arregala os olhos. O Titanic permanece imóvel no fundo do mar. O campeão de jiu-jítsu não atende o celular e cai zonzo. Restam no cinzeiro 44 cigarros inteiros, novos, não fumados, e apenas um, aceso. Ele bate na veia e prepara a injeção. O cego dá milho aos pombos na praia de Copacabana. O bispo arruma as hóstias. Os urubus voam em círculos cada vez mais próximos, mais próximos, mais próximos. O juiz olha o cronômetro e apita o início do jogo.

Rodada Especial 2017/2018

Texto: Cesar Cardoso
Vídeoarte: Maria Matina

1 comentário

Deixe um comentário