Acordou.
Abriu um olho.
E quando percebeu que não conseguia abrir o outro, assustou-se.
Fez esforço. Primeiro com a pálpebra, pois era o mais óbvio.
Constrangida, tentou com os dedos. Ainda timidamente, por que afinal de contas quem não conseguiria abrir, por si mesmo, os próprios olhos? Onde já se viu uma coisa dessas: auxílio para abrir os olhos? Respirador artificial, vá lá. Mas abridor de olhos era demais.
Depois de um tempo, a exasperação se instalou com rigor e sem apelações. Os dedos já lhe doíam quando resolveu recorrer a alavancas de objetos. Esferográficas, chaves, pegador de macarrão.
Não tinha jeito.
A pele do rosto já lanhada.
Suada e exausta.
Era definitivo.
Fez-se pirata.
Rodada Especial 2017/2018
Imagem: André Calazans
Texto: Eliane França