Quarenta minutos

Ainda suava, sem ofegar. Na rua deserta, à procura. O tempo todo, eu consultava o relógio, sem parar de buscar. Antigamente, ficava culpada por ter essas manias. Quando finalmente descobri o que eu tinha, não me importava mais. Não estava curada, nem em tratamento. Consciente, sim. O que não deixava de ser um alívio, mas só de lembrar da discussão que tivemos antes de sair de casa, começava a respirar mais rápido e sentia a ansiedade querendo se instalar.            

A rua continuava deserta. De gente e do que eu procurava. Olhei o relógio. Vinte e oito minutos. Enxuguei a testa. Suas palavras me martelando a cabeça. “Então, tira.” Esfreguei os olhos. Comecei a andar mais rápido. Pouco me importando, por incrível que pareça, se pisava em linhas brancas ou pretas, em sujeira, em pedrinhas portuguesas quebradas, em guimbas de cigarro, apagadas ou acesas. Vômitos, ratos, pombos. Nojeira. Nojeira foi o que você me disse. Em instinto, minha mão parou de esfregar os olhos e foi para a barriga. Assim fiquei. Procurando o que tinha vindo procurar. “Então, tira.” Não me lembrava se você tinha dito isso em grito ou sussurro. Para mim, abismo. Quando disse que o resultado do exame tinha dado positivo, ingenuamente, esperei ver sua felicidade. No entanto, fiquei com outra imagem congelada na minha retina. O cronômetro no relógio avisava: trinta e um minutos. Avistei mais uma! Chutei sem dó, nem piedade. Saí correndo. Novamente impune.            

Quando eu ainda procurava ajuda para o meu transtorno, li que os ciclos de obsessão costumam durar cerca de quarenta minutos. Enquanto esse tempo não passa, nós – os transtornados – fazemos o que temos de fazer. Matamos a agonia. Criamos algum “joguinho”: temos de fazer tal coisa, assim nada de mal nos acontecerá… é bobo, sei. Mas não é consciente. Ali. Mais uma! Parei em frente à sexta lixeira. Faltavam quatro. Esse era meu “joguinho” de hoje: quebrar dez lixeiras… Ou esperar passar mais oito minutos.            

“Então, tira!” – a sua voz, ao final da discussão – rondava minha cabeça. Em frente à lixeira arrebentada, um menino me condenava? Ou seria uma menina? Sete minutos. Não iria encontrar dez lixeiras. O Melhor era sentar e esperar.            

Não vou tirar nada! Nem menino, nem menina. Seis minutos. Já respiro melhor? Sento ereta. Eu que faço as regras. Terei. Não tiro. Menino ou menina, eu não me importo. Um minuto. Eu que faço as regras: com ou sem você, eu terei. Menino ou menina. Não destruo mais nada. Três, dois, um.  

Rodada 80

Imagem: Lucia Dias
Texto: Eliane França 

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