São longas, as filas. E muitas. E lentas. A fila para o benefício, para o trem fantasma, para o arco e a flecha. A fila do açúcar, dos ovos, do suspiro. Na fila do amor, as pessoas torcem lenços nervosos, seguram nas mãos flores que já murcharam e odeiam os que têm água. A fila para os que querem estudar finlandês é pequena e cheia de uma esperança irrequieta. Mas ao chegar no guichê só há vagas para o telemarketing e a dieta de proteínas. Na fila da família há uma distribuição de sanduíches que ninguém come. E todos mastigam em silêncio. Na fila dos floristas, cada um deve recitar sua sentença assim que chegar na cela. Na dos hospitais,há tijolos para quase todos. A fila das barcas tem se movimentado com desenvoltura, até desembocar numa fila de barcas. A fila mais rápida é para pessoas que devem percorrer grandes filas, dias e noites, repetindo: não há vagas, não há vagas, não há vagas. Na fila dos cachorros é proibido abanar o rabo. Na dos humanos, não. – Exibam seus passaportes! – recomenda-se na fila dos cegos. Há filas sinuosas, com sono e esperança, há filas em linhas retíssimas onde a respiração é compassada, e filas circulares que acabam em si mesmas. Fale na fila somente o indispensável. E repita, repita, não é de bom tom ficar calado. Corre um boato de que a fila para a lipoaspiração está se movimentando com grande rapidez. Também dizem que a fila para recadastramento de sadomasoquistas foi dispersada. E sussurra-se que a fila das mulheres negras não foi encontrada. Mas garantem que há filas por cores, profissões, ordem alfabética dos apelidos. Filas para quem quer ir ao teatro, para quem deseja devolver queijos, para os que espirram durante a noite. Filas para desaprender a ler. E desde hoje de manhã, todos estão nas filas, com suas senhas na mão, seus documentos no bolso, seus exames num envelope pardo, seus olhares no céu.
Rodada 79
Imagem: Marcia Magda Marcos
Texto: Cesar Cardoso