Por que não?

A irmã saía do banheiro de calcinha branca e toalha enrolada nos cabelos, derramando pelo corredor o cheiro inconfundível de Alfazema. A irmã ficava linda de calcinha branca.
O irmão engolia a comida às pressas para voltar ao trabalho, depois passava assoviando “Meu carro é vermelho/Não uso espelho pra me pentear”. O irmão era engraçado, com o seu chaveiro que tinha um pneuzinho de carro e a camisa volta ao mundo de colarinho em pé.
De cócoras no quintal, a coluna dobrada sobre a bacia de alumínio, a mãe ensaboava panos de prato e cantarolava:
“Meu canarinho, meu beija-flor, onde andará o meu amor?/Foi-se embora e nunca mais voltou.”
A mãe ainda era jovem, mas tinha cabelos brancos e muitas varizes.
O cheiro da irmã, o assovio do irmão, a cantiguinha da mãe… O mundo poderia ser assim, pequenino.
Por que não?

Rodada 78 invertida

Texto: Luís Pimentel
Imagem: Magali Rios

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