Meu vestido vermelho

             Comprei um vestido vermelho. Não importa se é bonito, se ficou bem em mim, se vou usá-lo um dia. Comprei porque precisava comprá-lo.
 
A vendedora se espantou quando entrei na loja apontando o vestido na vitrine. Quero aquele vestido, por favor, tamanho 40. Pode embrulhar, eu disse. Minha ansiedade de criança contrastava com a incredulidade da mulher  madura que eu era, mas não havia como não me subjugar àquele vermelho que me tomava por inteiro e se impunha como necessário à minha vida.
Também não acreditaria se alguém me contasse que fiz isso. Sempre olho, escolho, pondero, experimento, pergunto o preço, avalio para, enfim, comprar. Mas não se tratava de uma compra. Era uma urgência e não me detive.
Saí de casa atordoada. A vida estava sufocante, problemas, questões sem solução, uma desordem emocional me esganava.
O vestido vermelho estava acima de qualquer questão. Era um vermelho vivo que me chamava de volta à vida e que sugou minha atenção. Uma placenta que me alimentaria por um bom tempo até que eu renascesse. Uma paixão.
Um amigo, o poeta Agostinho, dizia em uma de suas poesias: “depois da esquina, a vida não tem soluções”. Pois olhando o meu vestido vermelho eu diria que, depois dele, tudo poderia ser solucionado.
A vendedora me perguntou se eu queria parcelar. Meus pensamentos estavam muito longe das lógicas financeiras. Nada fazia sentido. Não, não queria parcelar, para essas questões materiais sempre há um jeito mas, atender à provocação daquele vestido, isso sim era essencial.
Cheguei em casa e guardei-o com carinho. Só em sabê-lo dentro do armário eu já me sentia mais forte, mais completa.

Eu o usaria numa grande festa, para conhecer um novo amor ou, simplesmente, para me ver no espelho, no dia em que tivesse coragem de me olhar novamente.
 

Rodada 78 Invertida

Texto: Maria Emília Algebaile
Imagem: Angela Márcia

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