Panaceia

Vaguei de madrugada torcendo para que não acabassem as pilhas da lanterna. Os carros passavam a cada duas horas. Em vez de dar sinal por carona ou aproveitar a iluminação dos faróis, eu me escondia na mata. Poderia ser a polícia ou qualquer outro buscando por mim. Avistei uma subida e, logo que a rodovia dobrou à direita, enxerguei um portão com cadeado. Fui rodeando o muro até que esse se transformasse em cerca, daí pulei. O aramado metálico existia mais para evitar a saída dos animais do que a entrada dos viajantes. Eu não levava bagagem, sendo fácil transpor qualquer barreira. A luz da lanterna enfraquecia e eu penetrava cada vez mais no terreno. Seria uma fazenda? Haveria gente morando? Cães? Pelo estado do caminho de pedras em que eu pisava, era certo: morava alguém ali. Circulei mais uns dez minutos e percebi um rio. Desliguei a lanterna, deixei as pupilas se acostumarem com o brilho da lua crescente, estendi a mão no regaço de água e sorvi aquele líquido gelado como fosse a panaceia desejada. Segui contra o fluxo da água e, minutos depois, a lanterna não era mais necessária. No alto de uma das margens enxerguei um palacete iluminado e robusto. As lâmpadas atraíam as mariposas hipnotizadas. Vinte metros adiante do beiral da varanda, a luz ainda tingia o negrume e fazia do caminho seguro para os demais e perigoso para mim. A barba protegia parte do meu rosto, o restante congelava no frio da noite. Fui margeando o halo das luzes da varanda, fugindo de seu toque e me deparei com uma mureta vazada que separava o jardim da baixada que dava para o rio gelado. Junto a ela um banco. Nele me sentei e o corpo, não resistindo às sete horas de caminhada, desabou em sono.
 
Passar os dias nessa casa de campo era o que me inspirava na infância. E talvez você se pergunte: para que uma menina carece de inspiração? Para criar histórias em sua própria cabeça. Contos como esse que você lê agora, páginas que ninguém nunca lerá. Aqui eu via as estrelas que supunha só existirem nessa parte do mundo. Quando voltava para São Paulo, elas desapareciam assim que entrávamos na Marginal do Tietê. A vida nestas terras tinha outro ritmo, ditado pelos ciclos das vacas e dos galos, da lua e dos mosquitos. Nesta mansão de onde escutava o rio correndo, eu compunha contos de terror. Neles, animais devoravam o intestino das crianças que não se comportavam. Os monstros cruzavam com os filhos maus e geravam bestas de cabeça humana e garras gigantes que voltavam para devorar os próprios pais. Quando briguei com meu velho fiquei vinte anos longe desta fazenda e agora que aqui retorno é como se nunca tivesse saído. As histórias brotaram em minha cabeça no exato momento em que dobrei a chave do cadeado. Mas o que tenho a confessar é bem mais grave do que um conto de terror infantil. Essa noite, deixei meu marido morrer. O Mauro não era mais quem eu conheci. Achei que viveríamos juntos para sempre, mas um tempo depois ele mudou. Um grito, um soco na mesa. Até que um dia o tapa foi em mim. Fui me acostumando. Isso durou até que o Mauro adoeceu. Perdeu os movimentos do lado direito do corpo – a mão boa para bater – e começou a degenerar. Eu precisava lhe dar alguns remédios, cuidar da sua alimentação, fazer fisioterapias diversas com seus músculos atrofiados e foi exatamente isso que deixei de lado desde que saímos da vista de todos na cidade e viemos morar na fazenda de meu pai. Nessa madrugada, o Mauro morreu. Dormi em outro quarto tomando o cuidado de cobrir o corpo com lençol. O pudor da atitude me soou estranho. Na cama de solteiro onde adormeci por toda infância tentei desligar a cabeça, mas ouvia sons que vinham de fora. Parecia gente caminhando, coisa impossível nessas terras desinteressantes. Era de fato a minha infância visitando: eu ouvia o fantasma caminhar pelas pedras, pela grama, quase pude ver uma sombra se projetando no gramado frontal. Às seis da manhã, exausta, apaguei.
Acordei tarde, já passava das dez e fui conferir o quarto onde Mauro dormiu sozinho. Senti algo entre o alívio e a pena ao levantar o lençol. Um cadáver. Essa figura natural, fisiológica, corriqueira, frente à qual aprendemos a ter pavor e ojeriza. Mas meu grande susto aconteceu quando abri as oito folhas de portas que davam para o jardim em frente à casa. Junto com o ar gelado que limpava meus pensamentos veio também a imagem de um homem de capuz sentado no banco em frente a mim. Não foram fantasmas que caminharam pela noite… A casa foi invadida. Eu precisava me proteger. Com a lâmina gigante em punho acordei-o a alguns passos de distância. Isso me permitiria correr se a coragem de matar não brotasse quando fosse a hora:
 
— Ooooo! Hey! Oooooooo.
 
Ele ergueu a cabeça assustado, um par de olhos verdes se acostumou com a luz, jogou os braços para trás, acima da cabeça, se exibindo inofensivo. Não respondeu a nenhuma de minhas perguntas:
— Quem é você? Como entrou aqui?
— Calma, senhora. Desculpa. Não quero levar nada. Apenas dormi no banco. 
— Pois então vai embora agora, corre
— Tá bem, senhora. Por onde saio? Estava escuro quando entrei. 
— Como você chegou aqui? De onde vem?
— Senhora, estou indo embora – disse, levantado-se – só me aponta para onde saio. 
Fiz com o facão para a direita e ele imediatamente se dirigiu para lá. Fui seguindo a uns vinte metros para sentir-me mais segura, mas pensando comigo que nunca mais dormiria em paz naquele casarão. Eram urgentes as grades nas janelas.
— Vai reto, rapaz, não tem nada pra você aqui. 
 
Acordei já com a luz do dia e me sentei buscando forças para seguir jornada. Enquanto apoiava a cabeça nas mãos, mirando os joelhos, ouvi o grito. A mulher magra segurava uma faca do tamanho do seu antebraço e apontava para mim. Rendido, comecei a abandonar a casa na qual quase congelei durante a noite. Tentei controlar a situação, pois percebi que ela estava mais nervosa do que eu. E, com uma arma na mão, eu preferi que a mulher se acalmasse.
— Escuta: sou um bom homem. Apenas não estou atravessando uma fase das melhores
— Vai saindo, rapaz.
—Sim, sim, é o que estou fazendo.
— E para de olhar para trás, bora fora, bora.
Há sempre algo na comunicação que foge ao controle verbal. Na realidade muitas vezes as palavras são o que menos importam. Enquanto dialogava com a mulher eu usava um tom sereno, caminhava com as mãos cruzadas atrás da nuca e sempre baixava os olhos para dizer algo. Para não parecer que os verbetes nada importavam, salvo algumas oralidades que dão um tom natural à fala, não cometi erros de português e, vez por outra, até soltava alguma palavra mais complexa, indicador inegável de minha origem. Isso lhe inspirou confiança e coragem para o pedido:
— Escuta, será que posso confiar mesmo em você?
— Claro, senhora. Em poucos minutos sumirei pelo portão e não deixarei rastro de minha passagem.
— Não, falo de outra coisa. Falo de confiar, confiar mesmo.
Nessa hora encarei-a e baixei os braços.
— De que a senhora está falando?
—Preciso de ajuda, tem um homem morto nesta casa.
— Opa, senhora, desculpe, mas já tenho problemas demais.
— Não, não, calma. Foi só algo que pensei aqui. Ele morreu de doença, morte natural, mas tenho receio de que pensem que eu apressei a morte.
— A senhora apressou?
— Não te interessa.
— E onde eu entro nisso?
— Me ajuda a levá-lo ao hospital? Até a cidade. Chegando lá diga que nos encontrou à beira do portão. Ele ainda vivo, balbuciando palavras confusas, e eu querendo ajuda, mas sem condições de dirigir. Você pegou o carro da família, me ajudou com o homem e nos conduziu até o pronto-socorro.
— Mas, senhora…
— Por favor…
E então vi o quão bonita era minha anfitriã involuntária. As rugas no canto dos olhos acentuavam um ar de erudição e certa amargura. O nariz levava uma marca que repartia o percurso do osso ao meio, rompendo seu desenho afilado. O pedido “por favor…” e sua pausa seguinte, sinal de fraqueza, me dobraram à causa.
Neste exato momento estou retirando o corpo da cama enquanto ela traz o carro para mais próximo da porta. Descubro que se chama Mauro e que é seu marido. Conduzo o carro em silêncio até o hospital. A enfermeira empurra o corpo na maca eu espero junto à porta. Quinze minutos depois ela retorna, desolação estampada. Apresso-me em contar a versão combinada:
­— Eu vi aquela senhora amparando o homem na fazenda, ele parecia muito mal, não compreendia o que falava e ela gritava por ajuda quando…
— Shii, por favor, não é necessário. – disse a enfermeira colocando suavemente a ponta dos dedos em minha boca –  A Dona Marina merecia realmente repousar. Obrigado por trazê-los aqui.
Prefiro não insistir na mentira. Sumo tal qual apareci.
Venho para casa ansiosa por um chá que me cure o frio nos ossos. Erva cidreira é minha companheira, tomei dessa infusão por três homens mortos em tempos distintos. O primeiro foi meu pai. Brigados, morreu sem que pedíssemos perdão. Uma parte de mim não sente a falta: não éramos próximos quando vivos. Outra se arrepende exatamente por não entender como pude conflitar com quem sequer de mim se aproximou. O segundo homem foi o Mauro. Não esse que hoje conduzi ao hospital, mas aquele outro com quem me casei. Eu tinha acabado o chá de cidreira, fiquei com a caneca na mão sentindo o calor e aspirando o cheiro da folha, relaxando. Ele começou a gritar por um motivo tolo, havia se acidentado com as ferramentas de marcenaria e pediu a minha ajuda. Distraída, não me atentei. A vontade dele era me estapear, mas com a caneca frente à face o golpe foi mais certeiro. Tive de levar pontos e passei a conviver para sempre com um osso quebrado. Essa foi a noite de sua primeira morte. A segunda, natural e mais explícita, essa com a qual agora encerro a minha noite. Troco os lençóis, deito na cama e repouso o corpo que implora por um sono que a cabeça não concede. Sei que irei apagar. Sempre apaguei. Apago. Meu último pensamento me leva direto ao invasor de olhos verdes, mãos grandes e palavras gentis. Durmo e sonho que transamos. De nosso coito nascem pequenas feras, demônios de face humanóide e presas afiadas. Na primeira noite da vida de nossas crias elas nos violam, devoram nossas vísceras e nos purificam de todo o pecado.
 

Rodada 77

Imagem: Magali Rios
Texto: Pedro Silva

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