Olhos e bocas

Porque não há idade para a velhice, desde menino essa nuvem o assusta e essa cruz ameaça dobrar-lhe a coluna até a última vértebra.      
Porque há sempre dois olhos para denunciar e tantas bocas para te engolir.      
Desde sempre, e ainda muito novo, o peso dos anos atávicos e inexistentes.      
O pai ainda moço temia a morte, o filho tão moço incha os joelhos. E carrega nas costas o cansaço do meu avô.      
Porque não há hoje nem ontem, o amanhã é uma luz nublada a lembrar do que não foi feito. Porque a festa, meu filho, também dura pouco – o tempo daquele inesquecível pôr-do-sol. Mas não se esqueça dos dois olhos e das tantas bocas.

Rodada 77

Imagem: Glória Mota
Texto: Luís Pimentel

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