“A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo”.
Hermann Hesse (Demian)
Contam que o maluco do bairro era um leitor voraz de Machado de Assis. Conhecia toda a obra do tal do bruxo, e subia e descia ladeiras repetindo que Capitu não traiu Bentinho.
– Não traiu! Não traiu!
Quem já o conhecia bem não estranhava. Ao cruzar com ele, fazia uma reverência respeitosa e apenas confirmava:
– Não, não traiu.
O maluco ficava feliz. E seguia o seu caminho, casmurro, forrado de Esaú e de Jacó, elogiando Quincas Borba e repetindo trechos do Alienista, onde encontrara o seu personagem preferido:
– Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu – ele repetia.
– Ele quem? –perguntei, no dia em que o conheci.
– Aquele, o lunático do Machado.
– Que Machado?
– De Assis.
– Ele era lunático?
– Não. O personagem que era. Não leu “O alienista”?
– Não.
– Aquele, sim, não dizia coisa com coisa?
– O Machado?
– Não. O personagem.
– Sim. Mas o Machado dizia, não é?
– O ovo de Deus que engendrou Davi… Compreende?
– Acho que sim.
– Isso não importa. Mas não esqueça: o segredo e o mistério não estão na vida, e sim no ovo.
Rodada 76
Imagem: Marcia Magda Marcos
Texto: Luis Pimentel