O mais belo pôr do sol

     Depois de dar uma banana para o motorista que buzinava e xingava e mordia o painel do carro, que freara a poucos passos do seu corpo magro, ele olhou para cima e atravessou a avenida em dominó, atingindo o calçadão reticulado e mergulhando os pés descalços na areia quente.
A mochila no ombro.
     E ali, diante do mar, um olho nas ondas e outro no voo oblíquo da gaivota, sorrindo ao céu e à cadência da moça que mergulhava das pedras, exibindo no dorso o mais belo pôr do sol, acomodou os ossos entre o menino que jogava frescobol e o vendedor que espalhava picolés baratos e mate com limão geladinho.
E assim abriu a mochila aninhada sobre as pernas rútilas de varizes cinza, coçou a sola de um pé com a unha do outro e abraçou com as duas mãos o sanduíche de mortadela. A primeira mordida no momento exato em que a moça retornava, as gotas de água pingando dos bicos dos dois irmãos sobre o seu sanduíche. Os olhos acesos no brilho do mais lindo pôr do sol só conseguiram gaguejar:
– Quer um pedaço?
– Quero – ela disse.
Era quase noite, o dia morria ali por trás da Pedra da Gávea.
 
 (Do livro “Cenas de cinema – conto em gotas”. Editora Myrrha)

Rodada 70

Imagem: Gloria Mota
Texto: Luís Pimentel

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