Qual é a relação do pensamento quando cai no corpo? Ele entra num jardim circular onde cada pavimento de chão vai se dirigindo ao centro do jardim, mas o olhar é sempre reprimido pelas árvores que irmanam juntas fazendo deste: um lugar circular. Existe uma abertura na folhagem em cada volta que ele dá no jardim. Por isso a cada nova abertura nas folhagens, o homem deseja.
Como se a cada volta o pensamento emergisse ao corpo fazendo o corpo ter ações de um objetivo que o homem ainda não compreende, pois ainda se encontra perdido. Mas o corpo não pode agir, pois nas árvores há apenas frutos numa posição muito alta, e para isso o homem teria que subir, e portanto trair o referencial enigmático que tem de sua posição no lugar. Entra em mais uma entrada nas folhagens e o desejo agora é de espera
Que chegando lá, ele encontre ela, talvez colocando água num poço fundo, assim como a memória vai armazenando as circularidades por qual já passou. Ele pensa que este poço pode ter uma relação com esta camada densa de ramagens e de folhagens, portanto ele admite que se existir uma mulher colocando água no poço, seu referencial estará perdido se não achar mais entradas, pois as ramagens com a água tendem a se fechar. Ele encontra a penúltima passagem, só restando mais um pavimento de chão. Seu corpo está fremido de desejo
E tensão, pois está sem beber água há muito tempo. É sabido que uma pergunta abre um contato amoroso entre desconhecidos, e ele pensa na pergunta que fará a mulher para conhece-la. Neste instante a mulher para de colocar água no poço. Talvez algo a tenha chamado sua atenção, ou uma parte de seu corpo tenha emitido um sinal fortuito. Tomada por desejo
Abundante, a mulher toma a água do poço para se saciar. E vai se deslocando no espaço pequeno do poço, vai matizar-se as ramagens, aos poucos ela vai se incorporando a mata, o homem entra na última entrada e não sabe se o que toca é um pouco da tensão sexual que ali se está pelo jardim todo.
Rodada 48 Invertida
Texto: Fernando Andrade
Imagem: Paulo Rezende