Rebotalho

Ela sabia que as horas, as de amanhã inclusive, eram um passado recente. Os minutos mais ainda. Ela queria pular aquele capítulo, chegar adiante sem saber onde, o impossível não se dá de imediato, só em parcelas. A luz do dia mudava, indicava o tempo desgovernado, ela sentia o peito como um rebotalho de carpintarias antigas, restos viscerais, vidro esmigalhado. Ela queria pular aquela parte também, as horas já não cabiam (nunca couberam) no calendário. O futuro e suas punhaladas certeiras. Ela queria se refugiar no passado, toca restrita, fermentada. Rasgou as folhas do calendário, agruras e rebotalhos no peito, nos olhos. Pragas mal formuladas. Ela sabia que as horas caminhavam frágeis, mancas, e naquele jogo calculista, o que lhe restava, o que mais queria, era a qualquer preço se esconder.

Rodada 48 Invertida

Texto: Vivian Pizzinga (trecho do romance em processo de finalização)
Imagem: Magda Rebello (Técnica: foto pintura sobre tela)

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