… a deus

Minha vida é miúda. De onde venho, mulher é para casar, cuidar dos pequenos, cozinhar e satisfazer marido. Da porteira pra dentro é onde minha vida se desenrola. Esquento comida. Esfolo bezerro. Degolo galinha. Passo e lavo roupa. Também costuro, costuro tecendo cada pedaço de pano como se fosse um combinar de tempo e espaço, invento vestido novo com trapos de roupas velhas e esqueço amarguras. Aos domingos consigo me esquecer de mim. Também esqueço bezerro, criança e marido. Acordo antes de todo mundo. O galo canta, adivinhando o dia, e eu me levanto.

Hoje a casa ainda está no escuro, a janela da cozinha emoldura um horizonte avermelhado e o lampião, aceso na noite anterior, vai acompanhando os sinais do dia e revela luz fraca, rósea, que insiste em permanecer acesa, esperando o dia clarear. Caminho na sua direção com a intenção de apagá-lo, como faço todos os dias. Desisto. Hoje é domingo. Esqueço bezerro, criança, marido. Só não me esqueço de mim. Prá onde vou, mulher será pra quê?

Rodada 46

Imagem: Maria Matina
Texto: Ana Claudia Calomeni

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