Erro ou acerto?

Meu filho,

Escrevo a você sem saber se faço certo, diante da sua distância e indiferença, na nossa despedida. Pretendo esclarecer as razões que me levaram a essa decisão extremada. Talvez tivesse que ter me separado antes. Sinceramente, acho que passei do ponto, como um bolo que, por descuido, deixamos mais tempo no forno e queima. Tenho receio que você seja muito jovem pra compreender o que tento explicar.

Às vezes, você me parece tão maduro, mais até do que eu. Mas, no fundo, todos nós somos eternas crianças quando lidamos com sentimentos e emoções. Portanto, é possível que me entenda. Ainda assim, talvez fosse melhor que você lesse essa carta depois de amar alguém e entender o que é o amor. Mas será que algum dia a gente entende?

Filho, resolvi me separar da sua mãe e morar num outro país, por ora, pra que a minha relação com você não seja mais mediada por ela. Eu a amei, como a poucas mulheres na vida. Não sei dizer se amei a mais ou a menos. Sei que a amei. Fui, no início, loucamente apaixonado por ela. E foi a paixão que senti por sua mãe que fez com que eu quisesse conhecer, me apaixonar e amar outras mulheres. E assim foi. Quando me apaixonava por outras mulheres queria amar outras mais. Claro que o fato de precisar viajar e estar a cada momento num lugar diferente contribuiu pra esse comportamento, digamos, meio obsessivo. Eu reconheço! Não há um porto por onde eu tenha passado que não tenha tido, ao menos, um amor. Outros filhos acho que não tenho. Ainda, não soube de nenhum.

Agora, é diferente. Estou me separando da sua mãe pra, finalmente e de uma vez por todas, me unir a você. Há tanto que quero te mostrar, te contar e dividir com você. Embora esteja triste com o fim do meu casamento, estou extremamente feliz com essa nova oportunidade: um verdadeiro encontro com você. Estou te esperando.

Do seu pai que muito te ama.

Rodada 35

Texto: Ericka Gavinho
Imagem: Rudy Trindade

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