– Onde está o guardião?
– Deveria está aqui? Saiu.
– Como saiu? Sua função é guardar, ele precisa estar aqui.
– Mas não está mais. Ficou décadas espiando esse mar calmo, essa praia vazia, até que ele mesmo se esvaziou de sentido. Foi embora.
– E agora? O que eu faço? Custei tanto a chegar aqui.
– Como assim? O que você quer?
– Eu queria o guardião.
– Mas ele não tinha o que fazer aqui, cansou-se, morreu, ficou velho, sei lá, sumiu.
– E você? É o novo guardião?
– Não, estou aqui por acaso.
– E agora? O que eu faço? As coisas não podem ficar fora de lugar. O lugar do guardião é aqui.
– Mas as coisas por aqui estão onde sempre estiveram e o lugar do guardião é onde houver coisas para ele guardar. Aqui nada mais há para guardar.
– Pois é, mas haveria, se o guardião estivesse por aqui.
– Há décadas o mar é esse, sem ondas, sem vento, sem correnteza.
– Isso não impede que alguém pudesse se afogar.
– Há décadas essa praia é vazia, não há vida humana nessas areias.
– O que também não impede que elas sejam quentes e possam queimar os pés e os corações dos suicidas.
– Havia o guardião nessa cabana improvisada, que acabou se revelando sem sentido. Mas também acabou. Não há mais. Nada na vida é definitivo.
– E você? O que faz aqui?
– Estou aqui por acaso. Faça de contas que não estou. Aliás, você está me atrapalhando.
– Está vendo? Se o guardião estivesse aqui, ele te guardaria de mim.
– Se quiser, senta aí. Pára e andar pra lá e pra cá porque isso me atrapalha.
– Atrapalha o que? Você não está fazendo nada mesmo.
– Atrapalha o meu treinamento para não ser.
– Você também?
– Também o que?
– Também quer sumir?
– Não… não sei, ainda não cheguei a essa parte do pensamento…
– E agora, o que eu faço? Ninguém poderá me salvar. Há décadas busco este lugar e agora… não posso desistir…o guardião me salvaria… como posso me livrar de mim?
– De onde você veio?
– De longe, de muito tempo.
– Por que escolheu aqui para sumir?
– Não escolhi, eu vim. Vim porque esperava que o guardião me guardaria de mim.
– Mas ele não está mais aqui.
– E o que eu faço? Metade da minha vida já se foi.
– Faça o caminho de volta e conclua o seu ciclo.
– E se eu me perder dos meus objetivos?
– Então é porque o guardião te guardou. Volte. Sempre há essa possibilidade.
Rodada 35
Imagem: Fernanda Franco
Texto: Maria Emilia Algebaile
Muito interessante! Quem guarda quem?
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Adorei, Emilia!
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Adorei o Post, Parabéns!!!
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