O dia em que Ernst Gorsky andou durante seis horas e decidiu continuar andando pra sempre

Ernst Gorsky acordou às seis e trinta e dois, abrindo os olhos num rompante, no suposto momento em que se percebeu, em sonho, no meio de um labirinto interminável. Acordou com a sensação de ainda estar preso, sem saída. Ainda deitado, estudou os objetos que compunham seu quarto: o abajur antigo, a cortina verde com pequenos detalhes em branco sem um mínimo de requinte, a escrivaninha de madeira, com uma pilha de livros à direita, um porta lápis e uma caneca suja de café à esquerda, uma simplória poltrona de pano bege de onde seu gato branco o encarava misteriosamente.

Pensou em fazer uma lista do que precisava fazer naquele dia. Comprar comida do gato, registrar o dia anterior em seu diário, pintar as janelas da sala, trocar a lâmpada do abajur do quarto, escrever o capítulo 7 do seu oitavo livro policial, telefonar para sua filha. Depois de alguns minutos, levantou, tocou parte de uma sonata de Chopin ao piano e bebeu um café forte, como era seu hábito todos os dias. Expulsou o gato branco de cima da poltrona bege, sentou-se e decidiu, assim meio num rompante, escrever uma carta para sua ex-mulher, Heloísa. Ainda com a sensação de estar perdido no meio de um labirinto, procurando qualquer saída, começou uma carta que dizia assim:

“Querida Heloísa, decidi desistir da venda da casa, porque quero ficar por aqui. Muitas coisas ainda podem acontecer, mas nesse período, quero ter um lugar seguro para voltar. Mando junto com a carta algumas fotos, que talvez você queira guardar.”

Depois riscou as palavras “Querida” e “que talvez você queira guardar”, escreveu “que eu gostaria que você guardasse”, riscou novamente, fez um grande rabisco em todo o texto, amassou o papel e o jogou na lixeira verde limão de plástico, objeto que destoava de todos os outros em seu sóbrio e escuro quarto.

Novamente com a caneta azul sobre o papel branco de um bloco de anotações, reescreveu: “Heloísa, quero ficar com a casa, motivo pelo qual…”

Riscou “motivo pelo qual” e escreveu “desta forma, escrevo-lhe para perguntar se…”, riscou tudo novamente e amassou o papel.

Do lado de fora ventava como se tudo se tratasse de uma grande explosão. Parecia que o mundo queria varrer todos os Ernsts, todas as Heloísas, todas as filhas, todas as famílias, poltronas, casas, casamentos, separações. Tudo poderia parar de existir no instante em que ele conseguisse terminar aquela carta. No entanto, ainda assim não conseguia terminar de escrever sequer o primeiro parágrafo.

Ficou horas escrevendo, reescrevendo, amassando papéis e enchendo a lixeira verde limão de ensaios epistolares, tentativas de discursos inúteis, sonhos labirínticos ininterpretáveis, vontades de passado e de futuros paralelos. Até que num momento percebeu que aquela carta jamais poderia ser escrita.

Levantou. Andou de um lado para o outro. Sentiu frio e vestiu um casaco preto. Já era de tarde e o vento tinha amainado, mas a temperatura estava baixa. Primeiro foi o gato que pulou a janela e correu para o meio das árvores. Depois foi Ernst. Primeiro, ele abriu seu diário e escreveu: “Hoje decidi escrever uma carta a Heloísa, mas não imaginei como seria tão difícil. Inútil. Vou sair pra caminhar.” Colocou sua carteira num bolso, o endereço de sua ex-mulher no outro e saiu andando.

A única coisa que ainda não sabia era que jamais retornaria àquela casa que pensava tanto desejar. Andou durante seis horas seguidas. Depois achou que tudo que ainda podia fazer era continuar andando. E assim o fez. Talvez atrás do gato. Talvez à procura de Heloísa. Talvez em busca de si mesmo.

Rodada 28

Imagem: Fernanda Franco
Texto: Danielle Costa

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