Singular é essa gente,
Que é no plural pegajosa.
A baforada é quente e fétida
– E o caráter moldado
Na xepa da feira é fluido.
O sucesso é sazonal
Nesse país colorido.
Nos campos e nos bueiros,
Breve e limítrofe orgulho.
Tal doente terminal
Em cuidados paliativos,
Que a nossa ironia brega
Não deixa nunca morrer.
– Como um zumbi mesmo,
Mas não aquele dos Palmares.
É mãe que pariu a fórceps,
Comeu a placenta ao alho,
Pegou o filho entrouxado
E saiu pelo mundo afora.
Em bizarro paradoxo,
Uma sociedade de párias
Em grades, paredes, muros.
– E ilusórios malabares
Deitados em pleno dejeto
Dessa pátria-mãe dentuça,
Que abocanha o contracheque
No malote da esquina.
As aves que aqui gorjeiam
Engolem café com esparrela.
Santo é o sapo cururu,
Que toma no rabo na brenha.
Especialista em sorrisos,
Em gargalhadas profundas,
Logo em seguida caladas
Por fel e espancamento.
Aceita mudo o achincalhe,
Que rebate e que espelha,
Sem saber quem vem primeiro,
Qual anterior agoniza.
– É o ovo ou a galinha
Da agroindústria de agosto?
Nessa vã parafernália,
A sirigaita rebola
Qual liquidificador,
Mas a casa é sem reboco.
Pelos rumores do Ibope,
Nessa terra imaculada
Só falta uma isquemia
Pra implodir o império.
– Mas controlando a inflação,
Que a gente não é lacaio!
Antípodas de si mesmos,
Em antiquadas sesmarias,
Apadrinham uns aos outros
Em sina e antropofagia.
A intimidade da raça e
A identidade idílica
São nítida simbiose
– Ou será parasitismo?
É com pesar que anunciam
Que anteontem no plenário
Mais uma sessão adiam
– E pra isso não há antídoto:
Todos nós somos senhores
Das nossas próprias senzalas.
Mas entre ladainha e lágrima,
Rabada e lantejoula,
Fevereiro sempre existe
Pra reforçar a festa.
E depois sinal-da-cruz
Que é pra espantar a besta
Na garantia dos termos.
– Vontade de enfiar porrada,
Mas é tudo tão bucólico…
Se eu pedir licença-prêmio,
Vou ser leve ou leviana?
Eu sou labor ou sou luto?
Quem é livre e quem é lixo?
No lombo, carrego a lorota,
No bolso, o bilhete da Loto.
Na sola, o resquício da lama,
Na tela, o sonho da fama.
Na maloca, mangaba e maminha
Pro churrasco de “dia de sábado”.
Na TV, contraceno com sangue
– Só seis dias pro campeonato.
Que quase mórbida alegria,
Que satisfação aleijada
Desse povo alcoolizado
Nesse verso analfabeto?
– Mas como diz o Agualusa,
E talvez nem cause espanto,
O pessimismo é realmente
Um luxo dos povos felizes.
Rodada 26
Fotografia: Rudy Trindade
Poema: Maíra Fernandes de Melo
CLAP, CLAP, CLAP! O poema resume esse país e dois versos resumem o poema: \”– Vontade de enfiar porrada,Mas é tudo tão bucólico…\”Excelente.
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é ótimo quando uma obra nos surpreende aqui no CLP, mas há outras q fazem mais do q isto e q transcendem inteiramente a intenção do projeto. sempre senti falta de obras q traduzissem o Estado das coisas, q não tivessem medo de mexer com as feridas do tempo de agora. e tinha q ser o cronista visual Rudy Trindade e a politizada poeta Maíra para nos trazer um presente deste. No caso a imagem do Rudy é um \”passe\” (já q Rudy é um exímio fotógrafo tbm do mundo da bola) açucarado para a Maíra fazer um golaço poético. Ela q já nos tinha traçado com exuberância verbal o mal-estar de sua geração no poema dedicado a Ginsberg, agora ela nos traça com incrível acuidade o \”sucesso sazonal\” e a \”vontade de enfiar a porrada\” q está no mais íntimo desejo de toda uma época. O final do poema é simplesmente fantástico! Parabéns à coragem da dupla!
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Eu não imaginei o que poderia \”sair\” de texto sobre minha foto pois fugia realmente do projeto, ou não? Maíra, obrigado, texto maravilhoso…
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Adorei o Post, Parabéns!!!
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